A proposta da vacina é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos (Adobe Stock) Uma vacina para auxiliar pessoas que desejam parar de fumar está sendo desenvolvida no Brasil. A proposta é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de capturar a nicotina na corrente sanguínea antes que ela chegue ao cérebro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O projeto é conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Laboratório Cristália, em Jaguariúna, no Interior de São Paulo. A pesquisa encontra-se na fase conhecida como early discovery, período inicial no qual diferentes protótipos são avaliados em modelos experimentais. Segundo informações divulgadas pelo laboratório, até o momento a tecnologia foi testada apenas em animais. Normalmente, ao ser inalada, a nicotina chega rapidamente ao cérebro e favorece a liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer e ao sistema de recompensa. A repetição desse estímulo contribui para a dependência e torna mais difícil abandonar o cigarro. Como a molécula de nicotina é muito pequena, normalmente passa despercebida pelo sistema imunológico. Na formulação experimental, ela é associada a uma estrutura maior, capaz de ser reconhecida pelo organismo. Isso estimula a produção de anticorpos específicos. Se a pessoa voltar a ter contato com a nicotina, esses anticorpos deverão se ligar à substância ainda no sangue, reduzindo a quantidade que consegue alcançar o cérebro. A intenção é diminuir a sensação de recompensa provocada pelo cigarro e, consequentemente, o risco de recaída. “A vacina não substituiria o tratamento, mas poderia ajudar na sua continuidade”, afirma o médico Ogari Pacheco, fundador do laboratório e idealizador do projeto. Embora promissora, a estratégia ainda precisa superar várias etapas antes de uma possível utilização em seres humanos. O projeto deverá passar por estudos pré-clínicos de segurança e eficácia, desenvolvimento da formulação, ampliação da produção e diferentes fases de ensaios clínicos. Somente depois da obtenção de resultados favoráveis em humanos poderia ser solicitado o registro à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A ideia de criar vacinas contra a nicotina não é nova. Outros produtos semelhantes já foram avaliados em estudos clínicos internacionais. Alguns conseguiram produzir anticorpos, mas não apresentaram resultados consistentes na manutenção da abstinência entre todos os participantes. Entre os desafios está a grande variação da resposta imunológica de uma pessoa para outra. Esse histórico reforça a necessidade de cautela na interpretação dos dados iniciais do projeto brasileiro. Tabagismo O tabagismo continua entre as principais causas evitáveis de doenças e mortes. Dados atualizados da Organização Mundial da Saúde indicam que o tabaco provoca mais de 7 milhões de mortes por ano, incluindo mais de 1,6 milhão entre não fumantes expostos à fumaça. Parar de fumar envolve aspectos químicos, emocionais e comportamentais. Por isso, mesmo que uma vacina demonstre eficácia no futuro, ela deverá ser utilizada como parte de um acompanhamento mais amplo, e não como solução isolada. Atualmente, o tratamento pode combinar orientação profissional, apoio psicológico e medicamentos, de acordo com a avaliação individual. Quem deseja deixar o cigarro deve procurar uma unidade de saúde ou um profissional habilitado, sem esperar pela chegada de uma tecnologia que ainda se encontra em investigação.