Os filmes da franquia retornam aos cinemas nos 40 anos de Top Gun (Divulgação) Parece que foi ontem, mas passaram-se 40 anos. Top Gun estreou em maio de 1986 predestinado a marcar época. O filme arrecadou US\$ 356 milhões em todo o mundo, tornou-se a maior bilheteria daquele ano e redefiniu o conceito de blockbuster militar. Jaquetas bomber, óculos aviador, motos esportivas, pôr do sol alaranjado e a canção Take My Breath Away, eternizada pela banda Berlin e vencedora do Oscar, entraram imediatamente para o imaginário popular. Tudo planejado. Não foi sorte, foi estratégia. Arrebatador para o público, Top Gun, dirigido por Tony Scott, foi subestimado pela crítica assim como Maverick (Tom Cruise) por Iceman (Val Kilmer) na ficção. O enredo foi considerado superficial e ufanista. Ainda assim, o longa resiste ao tempo porque utiliza a linguagem cinematográfica mais poderosa: a emoção. Décadas depois, parecia improvável revisitar esse universo sem cair na armadilha da nostalgia vazia, mas Top Gun: Maverick (2022), sob a direção de Joseph Kosinski, preservou o legado. Não foi apenas a saudade de Maverick que levou o público ao cinema. A continuação funciona porque resgata o valor simbólico do primeiro filme e amadurece sua narrativa emocional. Maverick não tenta repetir Top Gun, mas envelhecer com ele, começando pelo próprio Cruise, que tinha 24 anos em 1986 e 60 em 2022. Trinta e seis anos separam os dois filmes e a passagem do tempo é o elo emocional. O piloto rebelde continua o mesmo, mas o mundo ao redor mudou. O personagem envelheceu, perdeu amigos, carrega culpas e se tornou sobrevivente de uma era que parece desaparecer. Há algo melancólico nisso, especialmente porque Tom Cruise ocupa hoje esse mesmo espaço dentro da indústria. Cruise talvez seja o último grande astro clássico de Hollywood. Não apenas pela fama, mas pela compreensão do cinema enquanto experiência coletiva. Em uma era dominada pelo streaming, tornou-se defensor obstinado das salas de exibição. Top Gun: Maverick comprova que o público ainda deseja grandes experiências cinematográficas quando elas entregam emoção, escala e autenticidade. O longa arrecadou US\$ 1,5 bilhão mundialmente, tornou-se a maior bilheteria da carreira de Cruise, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e venceu na categoria de Melhor Som. Mais do que números impressionantes, Maverick simbolizou um raro consenso cultural em tempos fragmentados. Jovens descobriram Top Gun pela primeira vez enquanto adultos reviviam uma memória afetiva construída nos anos 1980. Os dois filmes compartilham a mesma essência: competição, pertencimento, amizade, luto e superação. Apostam em imagens grandiosas, trilhas sonoras marcantes e personagens movidos por adrenalina. Mas Maverick acrescenta algo que o original não possuía com a mesma força: maturidade. A relação entre Maverick e Rooster (Miles Teller), filho de Goose (Anthony Edwards), transforma a continuação em uma narrativa sobre legado, culpa e reconciliação. Não é apenas um filme sobre pilotos, mas sobre tempo. Tempo de amadurecer, perdoar e seguir em frente. Talvez seja exatamente por isso que a volta dos dois longas aos cinemas provoque tamanho impacto. Rever Top Gun hoje significa revisitar o nosso eu do passado. Certos filmes não retornam às telonas apenas, eles devolvem sensações. A boa notícia é que o terceiro filme da franquia já está sendo escrito pelos roteiristas de Maverick, embora Joseph Kosinski não retorne à direção. É só questão de tempo até o ás indomável da indústria, Tom Cruise, encontrar o seu ala, aquele que honrará o legado de Top Gun mais uma vez.