Entre curtidas e comentários, o espetáculo do sofrimento ganha audiência (Adobe Stock) De vez em quando, as almas sebosas saem dos seus porões. Não é novidade: sempre estiveram por aí, às vezes disfarçadas de gente comum, outras, adornadas de boas intenções. Mas foi nas redes sociais que encontraram palco, microfone e plateia. O que antes era sussurrado no escuro, agora é gritado em caixa alta, entre emojis de riso e indignação performática. A morte de alguém? Motivo de deboche. A dor alheia? Um gatilho para julgamento. O sofrimento? Um espetáculo para curtidas. Como escreveu Hannah Arendt, “o mal pode ser banal”. E, de fato, tornou-se trivial o hábito de vilipendiar quem sofre, de torcer para que o outro caia e, se cair, que seja com transmissão ao vivo. Essa banalização do mal não vem de monstros. Vem de gente comum, que toma café pela manhã e espalha veneno à tarde. As redes sociais não criaram esse comportamento. Apenas deram vazão ao que antes era subterrâneo, murmurante. Um ressentimento que vive no fundo do peito e que se revela diante da fraqueza alheia. Como se a dor do outro fosse um lembrete da própria mediocridade. Como se o luto de alguém despertasse um prazer sádico de quem nunca aprendeu a amar de verdade. Fernando Pessoa, com a frieza dos que veem longe, escreveu: “O mal não está nas coisas, mas em nós”. Olhar para fora e apontar falhas é fácil; difícil é encarar o espelho e admitir que a alma também tem poeira. Que há algo de torpe naquele prazer em corrigir, julgar, punir, sobretudo quando não se é afetado. Quando foi que perdemos o hábito da generosidade? Quando deixamos de perguntar, antes de julgar: “E se fosse comigo?” Chico Buarque, em sua delicadeza aguda, cantou: “A dor da gente não sai no jornal”. Mas agora sai. Sai em postagens, stories, comentários maldosos. E, pior, com torcida. Vivemos uma era em que o sofrimento virou matéria-prima de entretenimento. E quem se compadece, muitas vezes, é tachado de fraco, de ingênuo, de politicamente correto. Há algo doente em acordar e, antes mesmo do café, despejar raiva. Há algo doente em buscar, no luto alheio, uma chance de humilhar, de vencer um debate imaginário, de lacrar. Como se isso, por um instante, curasse a própria frustração. Mas não cura. Só aprofunda o vazio. Guimarães Rosa, mestre das miudezas da alma, escreveu: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa. Sossega e depois desinquieta.” Talvez o que nos falte seja esse silêncio anterior ao julgamento, esse sossego, essa pausa que antecede a palavra e que permite que a escuta aconteça de verdade. Essa crônica não é um sermão, é um lembrete. Antes de julgar o mundo, é preciso se perguntar: como andam meus afetos? Tenho sido ponte ou pedra? Tenho cultivado empatia ou ressentimento? “Conhece-te a ti mesmo”, já ensinava o oráculo de Delfos, muito antes do Facebook. Mas preferimos conhecer o feed dos outros. Talvez seja hora de retomar o exercício antigo, e urgente, da reforma íntima. De entender que o mundo não melhora com indignação vazia, mas com afeto concreto. De lembrar que compaixão não é fraqueza. É a força de quem enxerga além da casca. E, quem sabe, ao fazer isso, possamos trancar de novo os porões das almas sebosas. Ou, quem sabe, transformar seus gritos em silêncio.