(Adobe Stock) O cotidiano é bombardeado por sons, barulhos, o grito metálico das máquinas perfurando as ruas, as buzinas enraivecidas pela pressa. Tem aquele dia em que você acorda e só restam os cheiros, os gostos, as palavras passeando pela memória, as palavras não ditas. O que sobra de matéria é escombro e o inexorável avançar do progresso que, estridente, é só um insistente engolir em seco a ausência, a finitude e a saudade. Toda essa triste sinfonia entorpece os sentidos e só quando cai a tarde chuvosa, no momento em que as ambições se arrefecem, é que se percebem as ausências. É que ultimamente tem muita gente dando adeus, uns com aviso prévio, outros de supetão, sem beijo ou abraço de despedida. As memórias e o breve sorriso da lembrança querida confortam um pouco, mas e depois, na hora após hora da existência, o que pode justificar a caminhada se toda ela estava emaranhada no encontro desses afetos agora perdidos? Como será possível lidar com tamanha melancolia e a constatação de que tudo o que nos cerca é demasiado desinteressante, sem a presença daqueles que o destino fez parar o coração ou que as diferenças levaram para outras margens de rio. Renunciamos a nós mesmos tantas vezes ao longo da vida para nos amalgamar no outro que, na ausência desses laços, não enxergamos mais sentido nas coisas e caminhamos em frente, sem ver graça em nada. O sol que se põe todos os dias é uma repetição cruel de uma beleza que não nos pertence, as crianças sorrindo maravilhadas com a areia da praia são parte de um filme preto e branco, pois as amarguras já descoloriram o coração. Em Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca afirma: ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a ti próprio. Uma vez lançada, a vida segue o seu curso e não o reverterá nem o interromperá, não o elevará, não te avisará de sua velocidade, transcorrerá silenciosamente. E que solução há para isso senão o único clichê possível: embrenhar-se nos mistérios da própria individualidade e transformar isso em vida, no barulho, no concreto, na garoa fina. Não ter receio de achar que a vida adulta não passa de uma infância perdida que precisa ser resgatada. Há sempre tempo para esse resgate, como mostra o filme Candelaria, do diretor Jhonny Hendrix Hinestroza. Nele, o casal Candelaria, 75, e Victor Hugo, 76, reencontra a magia do afeto que os uniu na juventude, quando passam a filmar o seu dia a dia, colocando amor e poesia no cotidiano triste da capital cubana Havana, em 1994. Para Sêneca, certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas, segundo o filósofo estoico, a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. É isso o que sente Victor Hugo: algo se perdeu e só ele poderia resgatar isso. Com o passar dos dias, encontra em Candelaria não o frescor da juventude, mas as páginas invisíveis de um livro bom que os dois escreveram juntos e que estava mofado em algum canto úmido da casa. Quando se descobre o poder cocriador e coexistente dos sonhos, brota a poesia que revive o que já está morto. Saltam versos que nos salvam da melancolia e da decadência da carne. Mesmo no silêncio, sai como um grito. Mesmo na ausência, revelam eternidades. Esse é um antídoto possível contra a melancolia desses dias em que há tanta gente dando adeus, sem beijo ou abraço de despedida.