Taraji P. Henson encarna mãe desesperada em Até a Última Gota (Netflix/Divulgação) Taraji P. Henson, uma das protagonistas do aclamado Estrelas Além do Tempo (2016), é a força motriz de Até a Última Gota (Straw, 2025), da Netflix. A atriz assume a protagonista Janiyah, uma mulher negra, trabalhadora e mãe solo de uma filha gravemente doente chamada Aria, interpretada por Gabrielle E. Jackson. A realidade de Janiyah na ficção é a mesma de muitas mulheres reais e, por isso, o filme tem alcançado ampla repercussão. A personagem tem dois empregos, mas vive no aperto, enfrentando sérias dificuldades financeiras. O drama social desta família é a linha-mestra deste thriller policial tenso e humano escrito e dirigido por Tyler Perry. O cineasta apresenta um dia infernal na vida difícil de Janiyah desenrolando a trama a partir de um elenco formado em sua maioria por atrizes e atores negros. Tyler investe no protagonismo feminino e na sororidade, mas peca ao contrastar com personagens masculinos agressivos e sem compaixão, generalizando que mulheres são solidárias às outras e homens são cruéis. A vida não é assim. O roteiro traz referências a dramas policiais clássicos. Já no início, a trama joga o espectador no desconfortável apartamento de Janiyah e Aria. Mãe e filha dormem na mesma cama, num cômodo pequeno, tipo quitinete. Acordam ouvindo música alta vinda da casa do vizinho e suando em bicas por causa do calor, há louças sujas na pia e sobre a mesa de jantar. Pudera, a mãe, à beira da exaustão, passou a noite no hospital com a filha, após ela sofrer convulsões. O ambiente muito quente, bombardeando eventos irritantes lembra o início do drama policial Um Dia de Fúria (1993), de Joel Schumacher, onde Michael Douglas encarna um homem que surta após muitas frustrações e deflagra uma onda de crimes violentos. Da mesma forma, naquela manhã, um pico de estresse atira Janiyah às raias da loucura e do delírio. Desesperada, acaba se envolvendo em vários infortúnios, sofre acidente de carro, é demitida do emprego, é despejada e tem suas coisas jogadas na rua por não pagar o aluguel, mata o ex-chefe e faz reféns dentro de um banco. Nesse ponto, ela já está enredada em uma teia tecida por um grande mal-entendido. No entanto, Janiyah entra na agência apenas para sacar o pagamento e dar US\$ 40 para a filha pagar o almoço e não sofrer mais bullying na escola. Mas, a bancária desconfia e se recusa a descontar o cheque para uma mulher em desequilíbrio emocional até que Janiyah saca uma arma da bolsa e se complica ainda mais. Outra bancária chama a polícia e a gerente diz que, além de armada, ela tem uma bomba. O circo está armado. A partir daí segue-se uma sequência de tensão em uma dinâmica com referências a outro drama policial humano, o clássico Um Dia de Cão (1976), com Al Pacino como Sonny, um homem casado e pai de dois filhos que assalta um banco a fim de conseguir o dinheiro para a cirurgia de mudança de sexo de seu namorado Leon. Tal qual Sonny, Janiyah é apoiada por reféns e pela multidão do lado de fora da agência, após ouvirem sua história. O diretor põe sua crítica social e ao racismo nos diálogos das personagens, que contam suas agruras sem aprofundar o tema, e executa mal o drama pessoal da protagonista. A certa altura ocorre uma reviravolta que choca, mas impressiona menos do que poderia com um roteiro melhor. A ausência de close-ups — enquadramentos fechados nos rostos —, reduziu o potencial de tensão que a história prometia. Mas, o filme é um dos melhores da temporada e sempre vale a pena assistir Taraji P. Henson em cena. Ela é uma das atrizes mais talentosas de sua geração e defende a sua Janiyah como uma legítima mãe preta, pobre e periférica norte-americana em situação desesperadora. Nota: + + + + +