Ator Alexandre David fala sobre personagem Cláudio da novela Coração Acelerado, a construção do sotaque goiano, o amor pelo teatro e os 40 anos de carreira (Isadora Relvas/Divulgação) Ator de trajetória sólida no teatro, televisão e audiovisual internacional, Alexandre David atravessa quatro décadas de carreira com a curiosidade intacta e o olhar sensível sobre os personagens que interpreta. Na novela Coração Acelerado, ele dá vida a Cláudio, uma figura acolhedora, quase um porto seguro emocional, que conquista o público pela humanidade, leveza e humor. Nesta entrevista, ele fala sobre a construção do personagem, o mergulho no universo da cozinha e da cultura goiana, as trocas entre gerações no elenco e as reflexões que chegam aos 40 anos de profissão com o palco ainda como seu território sagrado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O Cláudio, de Coração Acelerado, é um personagem acolhedor e humano. O que mais te atraiu nele quando leu o texto pela primeira vez? Então, Cláudio é um personagem acolhedor e humano. Eu gosto de personagens que têm um fundo grande de humanidade, de bom caráter. É um personagem bom que você tem prazer em acompanhar cenas, tem um pouco de humor também, é um pouco ingênuo. Tem cenas muito emocionantes que a gente já gravou de conversas e passagens entre o Walmir e o João Raul (Antônio Calloni e Filipe Bragança) em que o Cláudio participa também. É muito bonito porque é um personagem que representa um pouco o acolhimento da casa, o refúgio para as dores, para os problemas deles, então tem passagens muito bonitas, isso me atrai bastante. Você comentou que não é muito cozinheiro na vida real. O laboratório no restaurante mudou sua relação com a cozinha? Mudou, porque sempre quando a gente entra num universo, a gente muda a nossa opinião sobre aquele assunto, né? Vi muita coisa interessante. Eu sempre vejo cozinha como um laboratório de experimentações. Um lugar pelo qual tenho muito respeito. A nossa relação com a comida é a base da nossa vida e saúde. É bonito e até emocionante ver como os cozinheiros, as pessoas que trabalham com isso, pensam o alimento. Toda vez que eu entro num trabalho, acabo mudando o meu ponto de vista. Com a música sertaneja também está acontecendo isso, estou descobrindo muita coisa interessante, ouvindo muito Marília Mendonça e entendendo como ela foi realmente um fenômeno muito bonito, uma artista com um potencial enorme, uma contadora de histórias. Isso é o bonito da profissão do ator. A gente tem possibilidade de entrar em vários universos que não fazem parte da nossa vida cotidiana e mudar a nossa opinião, tirar os nossos preconceitos. Como foi construir o sotaque goiano e o universo regional para a novela? Alguma descoberta sobre Goiás foi mais marcante? Eu sou mineiro, então tem muita coisa parecida, os sons de S. Tem uma descoberta que a professora de prosódia mostrou para a gente, que são sotaques parecidos, mas Minas tem muitas interrupções, uma coisa mais seca, mais estanque, porque tem muita montanha, e Goiás é um descampado mais longo, mais aberto, então isso se reflete na maneira de falar, então é interessante revisitar isso porque sou mineiro, mas moro no Rio de Janeiro há muitos anos. Eu já tinha ouvido falar e lido que Goiás é um estado muito rico, de gente muito acolhedora e realmente muito interessante, tem muita coisa bacana para ser mostrada para o Brasil inteiro, então a novela está pegando esse gancho e mostrando para o País todo esse estado tão interessante. E descobrir os artistas de lá que estão na novela também é muito enriquecedor. São todos muito talentosos e com muita vontade de mostrar trabalho. Em um elenco com nomes consagrados e jovens talentos, o que você tem aprendido com essa troca de gerações? É sempre bacana. É uma família que se forma, então as trocas são muito interessantes. Com os nomes consagrados, pessoas que eu já admirava há muito tempo e tendo agora a oportunidade de conversar, de trocar ideias, uma experiência única. Com Antônio Calloni, que é um querido, um cara tranquilo para caramba e tem muita história, gosta de conversar, curte videogame e quer trocar ideias sobre filmes e teatro, trabalhou com Antunes Filho. É legal trocar essas ideias e ver que a TV realmente é um lugar de encontro com muitos talentos. O Marcos Caruso também é a mesma coisa, muitas histórias. Eu adoro ouvir história, gosto muito de aprender com os mais experientes. Outro bom de prosa é Stepan Nercessian, que tem muita história boa, um cara muito engraçado, muita gente fina. O Carlos Araújo, diretor geral da novela, é outro com muita experiência e com que eu já havia trabalhado em Cheias de Charme. Em relação aos jovens talentos, vejo que eles vêm com uma fome de trabalho e com muita segurança. É uma geração que já vem quase pronta com essa coisa do audiovisual por causa da internet, então o elenco tem muitos jovens que trabalham com isso e que possuem seus canais de Instagram, YouTube etc. E eles têm um jeito interessante de abordar o trabalho, mais fresco, mais espontâneo. Cláudio funciona quase como um confidente do João Raul e do Walmir. Você já viveu personagens com esse papel de porto seguro? Em Verão 90, que é uma novela de 2019, a última que fiz, também da Izabel de Oliveira, eu era um confidente do Álamo, que era o personagem do Marcos Veras. Ele tinha uma relação amorosa e muito engraçada também, de idas e vindas com a Madalena, que era a Fabiana Karla, e eu fazia o Floriano, que era o gerente da loja do Marcos Veras. Então a gente conversava muito também em alguns momentos sobre a relação deles, ele se abria para o Floriano, era muito engraçado. No teatro, também. Eu fiz Na peça Anjo Negro, do Nelson Rodrigues, o Elias, que tem um momento que a Virgínia também se abre para ele e conta todos os problemas que ela está passando com o Ismael. Ela chega a seduzir o Elias para ter um filho com ele. É uma peça que eu fiz na França, em francês, foi bem interessante. Acho que eu tenho essa carinha de pessoa confiável, talvez. É engraçado isso! O humor aparece muito nas suas cenas. Você se sente mais à vontade na comédia ou prefere o drama? Acho que a comédia é algo divino. Fazer as pessoas rirem nos dia de hoje é quase um milagre, porque o mundo está tão pesado. Eu adorava Jerry Lewis, Charles Chaplin, acho esses caras os grandes magos da comédia mundial. Aqui no Brasil também sempre gostei muito do Chico Anysio, do Jô Soares, dos Trapalhões. Eu acho que a comédia exige também um grau de inteligência, de você fazer referência a outras coisas e relações com a vida, com a política, com os problemas do mundo. Tem um sarcasmo, uma ironia que eu gosto muito, mas o drama também tem seu valor. Eu vi agora Hamnet no cinema e saí chorando, acabado, realmente leva você para outras dimensões com relação a entender a vida, a existência. O próprio espetáculo Hamlet, que eu vi montado pelo Peter Brook na França, também é o meu espetáculo preferido, é muito intenso, você consegue ver a profundidade do pensamento, do entendimento sobre a vida. Trabalhei também no Centro de Demolição e Construção do Espetáculo, grupo de teatro dirigido pelos saudosos Aderbal Freire Filho e Marcos Vogel e eles faziam muitas comédias, então eu vi ali como funcionava bem com o público, que saía sorrindo e feliz do teatro. Ao completar 40 anos de carreira, o que mudou na sua forma de escolher personagens e projetos? Passou muito rápido. Acho que como tudo na vida, né? A gente começa a ver as coisas com mais calma, mais tranquilidade, e escolher projetos que nos façam feliz, porque a vida é muito curta. Esses 40 anos passaram num piscar de olhos. Eu estou com 57 agora. O que mudou, eu acho, é que na televisão a gente aprende a aceitar projetos bacanas, independentemente de personagem, porque é importante estar em projetos bons. Fazer televisão divulga o nosso trabalho para o Brasil inteiro e para o mundo. Aceitei fazer Rio Connection (que está no Globoplay) em inglês porque sabia que era uma série que seria exibida em muitos países na Europa, na Ásia etc. No teatro, a gente tem possibilidade maior de escolher. A primeira coisa que temos que saber escolher são o elenco e os profissionais que vão trabalhar com a gente, porque são essas pessoas que vão levar o trabalho, o projeto ao longo de meses. Estou voltando agora para um projeto que fiz há 25 anos, a peça Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços, com dois grandes amigos. Então, com certeza, o texto é bacana, o autor, o diretor também, mas são os amigos de elenco que vão conviver com a gente, então é importante você trabalhar com pessoas que você se identifica e que pensam mais ou menos parecido sobre a mensagem que vai ser transmitida ao público. É importante sempre pensar no lado humano, e não só no lado técnico da coisa, o que vai dar lucro, o que vai ser bom para a carreira. Depois da novela, você pretende voltar ao teatro? O que o palco representa hoje na sua trajetória? É diferente da TV? Eu vou voltar ao teatro. O palco representa tudo, é no palco que a gente experimenta, cresce, seja assistindo ou atuando em peças. A gente tem o tempo de pensar, de aprofundar, de experimentar, de conhecer universos novos, com textos e autores novos. O palco é o domínio do ator, então é muito importante fazer teatro. O palco é tudo, é onde a gente se alimenta, é onde a gente cresce, é onde a gente aprende, reaprende, experimenta, reexperimenta, é tudo. Tive oportunidade de ver muitas peças agora, porque estava gerenciando o Teatro Glaucio Gil, em Copacabana. Foi muito importante porque passou muita coisa boa ali. Foi um aprendizado também esse lado, além de aprender a administrar um teatro. Fazer teatro ajuda muito a fazer TV.