Emily Blunt e Josh O'Connor protagonizam o filme de Steven Spielberg (Reprodução) Steven Spielberg declarou que Dia D (Disclosure Day) tem mais verdade do que ficção. É fato. O filme é baseado em investigações reais sobre extraterrestres conduzidas pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, entre elas o famoso caso Roswell, registrado em julho de 1947, no Novo México. No entanto, o aclamado cineasta retrata uma outra verdade, muito mais importante e desconfortável: a ambivalente natureza humana. Expor a crueldade e a compaixão da nossa espécie é um aspecto presente em praticamente toda a filmografia de Spielberg, de Indiana Jones à obra-prima A Lista de Schindler, incluindo seus filmes de temática extraterrestre. Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, lançado em 1977, um jovem e promissor cineasta abordou a fascinação humana pelos extraterrestres e o desejo de se comunicar com eles. O antológico E.T. – O Extraterrestre, de 1982, retrata a emocionante amizade entre o menino Elliott e um carismático alienígena perdido na Terra. Já Guerra dos Mundos, de 2005, adaptado do clássico sombrio de H.G. Wells, explora uma invasão alienígena violenta e a luta pela sobrevivência da humanidade. Em Dia D, Spielberg dá mais um passo nessa trajetória e aborda como os seres humanos reagiriam diante da revelação definitiva de que não estamos sozinhos no universo. Mas Dia D é muito mais do que uma ficção científica. É um drama com forte crítica social e moral. A história foi criada por Spielberg e roteirizada por David Koepp, parceiro de longa data do diretor em produções como Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997), Guerra dos Mundos (2005) e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008). No filme, o diretor deixa claro que a nossa espécie é a maior ameaça. Ele estabelece uma relação entre evolução e empatia. Quanto menos evoluída moralmente é uma espécie, mais cruel e menos capaz de compreender o outro ela se torna, aumentando o risco da própria extinção. Em contraponto, os extraterrestres são apresentados como seres extremamente avançados, dotados de telepatia, clarividência e precognição. Possuem larga vantagem evolutiva sobre os humanos e poderiam dominar a Terra com facilidade, mas a intenção deles está além da compreensão humana. Eles transmitem suas habilidades a alguns humanos com o propósito da pacificação. Spielberg sugere que a verdadeira evolução não está apenas na inteligência, mas na capacidade de superar a violência. Quanto mais avançada a espécie, menos cruel ela é. Judeu, cuja herança religiosa e cultural influencia toda a sua obra, Spielberg também faz em Dia D uma respeitosa aproximação com o catolicismo. Uma freira está entre as primeiras pessoas a compreender não apenas a existência dos extraterrestres, mas também o propósito maior da convivência entre espécies de diferentes mundos. Como Spielberg mesmo declarou, seu entendimento sobre os extraterrestres mudou ao longo dos anos. Em Dia D, ele está menos interessado em responder se eles existem e mais preocupado em discutir quem somos nós diante dessa possibilidade. Vale destacar o elenco primoroso formado por Emily Blunt, Josh O’Connor, Eve Hewson, Colman Domingo e Colin Firth. Spielberg entrega a Domingo e Firth o diálogo mais importante do filme. A questão de estarmos ou não sozinhos no universo parece superada para o diretor. O que ele realmente quer comunicar é a resposta para uma pergunta muito mais profunda: por que estamos aqui? A dupla interpreta um texto que condensa reflexões antropológicas, filosóficas e espirituais de forma simples e sofisticada. É nesse momento que Spielberg revela a verdadeira essência de Dia D. O filme não é sobre eles. É sobre nós. Boa semana!