Entregar trabalho acadêmico feito por IA não é sobre malandragem. É sintoma de algo maior (Adobe Stock) São 19h50 de uma sexta-feira. Estou em sala de aula. Minhas alunas e meus alunos fazem a principal avaliação do semestre. É uma das melhores turmas que já tive. Gosto de acompanhar meus estudantes por mais de um semestre. Observamos a evolução quando é uma moçadinha dedicada - como esses são. Mas as moças e os rapazes aqui, à minha frente, não terei o privilégio de seguir lado a lado. Saberei por colegas. Farei questão de saber e faço questão que elas e eles saibam que sempre poderão contar comigo. Para uma palavra, um café, um abraço. Sigo professora, claro! Um dos meus papéis preferidos no meu mundo. Preciso, no entanto, nesse momento, abrir espaço e tempo para surpresas da vida. Não tão surpresas. São resultado de muita coisa construída. Ainda assim, capazes de mexer com as emoções - e exigir mais trabalho. E outras dedicações. Independentemente do que vem, se dará certo ou não, essa turminha não será esquecida. Em especial por entregarem excelência e ética na era da inteligência artificial (IA). Nada contra a IA. Pelo contrário. Considero uma ferramenta excepcional. Mas talvez poderosa demais para uma sociedade que tem mania de usar de maneira distorcida o que é criado para avançarmos. E aí a tristeza de constatar que já tem gente entregando trabalho de faculdade feito do começo ao fim no ChatGPT. Achando que professor não vai sacar. Sem mínima análise de conteúdo proposto e um copiar e colar do que a máquina disse. A IA erra. Inventa. Não é exata. Ajuda a elaborar ideias, destravar o pensamento, construir reflexões. Mas não vai fazer ninguém tirar a nota que precisa. Entregar trabalho acadêmico feito por IA não é sobre malandragem. É sintoma de algo maior. De um cotidiano em que tudo se tornou instantâneo demais. Sem esforço para pensar, com opção infinitas para escolher, informação em excesso para lidar. Cérebros constantemente impactados por ruídos imagéticos, concentrações interrompidas, atenções fragmentadas. Conversando com um amigo também professor, comentamos quanto é uma geração que cada vez menos sabe estudar. Sentar a bunda na cadeira, prestar atenção, anotar (não tirar foto) da explicação do professor. Na hora da prática, colocar a mão na massa realmente, levar à sério a experiência, sem fazer mais ou menos só para constar. Para ser justa, não é uma falha de caráter de universitários. A quantidade de reuniões que venho participando nas quais as pessoas não estão de fato ali, incapazes de olhar para seus interlocutores enquanto falam e mexem ao mesmo tempo no celular, é estarrecedora. Obviamente, processos saem errados ou comunicações são repetidas à exaustão. Erros exigem retrabalho e o cansaço acumula. É ruim para todos os envolvidos. Eu me preocupo bastante. Leva as pessoas a serem menos tolerantes e mais egoístas, como se a vida, o estudo, o trabalho fossem a individualidade narcisística proposta pelas redes sociais. No semestre passado (e contei aqui para vocês), nunca tive tantos estudantes enfrentando crises de pânico e ansiedade. Agora, acompanhei um número assustador de alunas e alunos incapazes de olhar além de si mesmos, exigindo direitos sem cumprir deveres. O que virá no próximo? Apesar desse contexto, turmas como a que cito no início desse texto ajudam a acreditar que segue valendo o esforço. O combustível para qualquer docente continuar, mesmo com os desafios. Gente que sabe a importância da tecnologia, mas que ser humano ainda é o que sela um destino para lá na frente se orgulhar. P.S.: para não esquecer o valor de ensinar e de aprender, vale ouvir depois de ler o texto a trilha sonora de um dos filmes mais inspiradores sobre a relação professor e aluno: A Sociedade dos Poetas Mortos. Você encontra no YouTube.