“Sou naturalmente curiosa sobre todos os assuntos, principalmente aqueles que não conheço", diz a arquiteta (Alexsander Ferraz/AT) Com mais de 30 anos de carreira, a arquiteta Patricia Anastassiadis construiu uma trajetória marcada por projetos que se destacam pela pesquisa e por valorizar a essência da localidade em que trabalha. Seu trabalho está em empreendimentos no Brasil e no exterior, incluindo o Palácio Tangará, em São Paulo, o Fairmont Copacabana, no Rio de Janeiro, e o Hotel du Cap-Eden-Roc, da Oetker Collection, na Riviera Francesa. Também assinou a arquitetura das áreas comuns e das suítes do Hotel Patmos Aktis, na ilha grega de Patmos, projeto que tem um significado especialmente afetivo por suas raízes paternas. Em Santos, Patricia esteve na Blue Gardenia, onde foi recebida por Mirian Gotfryd e Fabiana Geraigire para um bate-papo com convidados. Premiada internacionalmente, Patricia recebeu o iF Design Award pela mesa de jantar Versa, criada para a Artefacto. Em 2025, ganhou o Liv Design Awards, na categoria Architectural Design Hotel (Luxury), pelo projeto do Kempinski Laje de Pedra, na Serra Gaúcha. Na conversa, Patricia fala sobre as origens gregas e polonesas, conta como acabou trocando o sonho de estudar moda pela arquitetura e revela a história de seu primeiro projeto, o restaurante Filomena, em São Paulo, cujo chef era um jovem recém-chegado de Londres chamado Alex Atala. Também fala sobre atemporalidade, preservação do patrimônio e o que mais chama sua atenção na arquitetura de Santos. Seu desejo para os próximos anos? Projetar um museu. Você conta que, quando começou Arquitetura, percebeu que havia ali uma relação com a moda, mas também se encantou pela ideia de uma profissão mais perene, com menos descarte. Hoje, 30 anos depois, essa permanência continua sendo uma das coisas que mais a fascinam na arquitetura? E como isso aparece nos seus projetos? Minha relação com a moda vem desde sempre, porque minha mãe trabalha com isso e era parte do meu dia a dia. Era o que eu realmente queria fazer, mas não havia faculdade de moda no Brasil. Então, fui fazer Arquitetura, me apaixonei pela profissão e meu entendimento com relação à moda é que moda é modo, comportamento, e tem uma velocidade muito mais rápida. O que eu amo na arquitetura é que a gente atravessa o tempo com a obra construída. Mas acho que a moda, hoje, depois do fast fashion, entrou muito nessa questão do descarte. A moda anterior a isso também era feita com cuidado e para durar, então acho que temos que prestar muita atenção nisso. E a moda está sempre presente nos meus projetos de alguma forma, porque, como ela também é uma interpretação de um comportamento, quando a gente fala de decoração, de interiores e de elementos, isso se reflete diretamente em alguns itens que você pode mudar: cores que pode trazer, texturas, estampas. Acho que tudo isso entra também por meio da moda. Como foi que seu caminho foi parar em tantos projetos de restaurantes e hotéis pelo Brasil e pelo mundo? Meu primeiro projeto foi de um restaurante. Eu era recém-formada e recebi um convite de uma menina cujo pai era dono de restaurantes em São Paulo. Ele não acreditou que ela havia me chamado para fazer esse projeto. Eles tiveram uma briga em casa, tipo: Você não sabe o que está fazendo. Pegou qualquer pessoa no meio da rua, uma estudante. Eu apresentei o projeto e os pais gostaram. Eles eram Roberto e Vera Suplicy, donos do Suplicy. Então, meu primeiro projeto foi o Filomena, um restaurante em São Paulo cujo chef era um jovem que chegava de Londres e se chamava Alex Atala. Isso é muito legal, essa história é muito interessante. Você também fala sobre não gostar do descarte e sobre criar móveis que possam passar de uma geração para outra. Em uma época de projetos, móveis e tendências cada vez mais rápidos, como fazer uma arquitetura contemporânea não envelheça junto com a moda? Eu sempre penso na qualidade. Acho que você não consegue descartar o que tem qualidade. Quando recebo uma caixa, não tenho coragem de jogar fora. Uma fita, eu vou guardando, reciclando, porque, quando aquilo é bonito, quando existe uma invenção bem feita, quando é feito de uma forma com harmonia, linguagem e realmente com cuidado, é muito difícil você descartar. Você até pode dar para outra pessoa da sua família ou para algum amigo, qualquer coisa do gênero, mas isso não vai se perder. Então, é uma pretensão, talvez. E aí, sim, acho que trabalho a linguagem. É quando digo que já é atemporalidade: é não ter tempo, não estar atrelado a um tempo, mas ter um assunto e ser algo que você vai enxergar hoje e daqui a 10 anos. É aquilo que está superatual, aquilo que realmente conversa com você e dialoga com você. Depois de 30 anos, de projetos como Palácio Tangará, Fairmont, Hotel du Cap-Eden-Roc e Patmos Aktis, você ainda fala de curiosidade, coragem, resiliência e foco. O que hoje ainda desperta sua curiosidade profissional? E há algum projeto que você ainda gostaria de fazer e que falta nessa trajetória? Eu sou uma pessoa naturalmente curiosa sobre todos os assuntos, principalmente aqueles que eu não conheço. Então, acho que essa curiosidade é o que me alimenta todos os dias. Eu não repito receitas, então todos os projetos que a gente faz são únicos. Dá um trabalho maluco, mas é o que me motiva. São histórias que estou escrevendo na minha cabeça, que estou fazendo, e não que eu tenha que contar isso para alguém. Então, acho que isso me motiva muito. Gosto muito de restauro, então projetos que tenham restauro de patrimônio, algo que traga o passado e o presente, são coisas que gosto de fazer. E algo que eu gostaria, mas ainda não fiz: um museu. Sua carreira é muito ligada à criação de espaços contemporâneos, mas também fala bastante sobre memória e história. Santos é uma cidade com um patrimônio arquitetônico muito rico, que vai dos edifícios históricos do Centro, como a Bolsa Oficial de Café, aos modernistas de Artacho Jurado. O que mais chama sua atenção quando olha para a arquitetura de Santos e o que é preciso conservar? Os diferentes períodos históricos e os modernistas, com certeza, me chamam a atenção. É a qualidade do conjunto. E, quando a gente olha a arquitetura contemporânea entrando, acho que às vezes perde um pouco desse referencial. Eu sei que ela não fala... Ela está ligada ao passado, vai querer tentar imitar o que ocorreu, mas o que eu gosto muitas vezes é criar esses diálogos, essas relações, porque vou olhar para uma caixa e também tentar interpretar como é que isso aconteceria. Acho que preservação é uma coisa que, nós brasileiros, não temos dentro da nossa alma. É história, né? A excitação de prédios históricos, a ressignificação de espaços, eu gosto muito disso. E Santos é rica, extremamente rica. É lógico que precisa de investimento. Tem uma iniciativa do setor privado com o poder público se unindo, precisa de uma série de coisas, mas tem muito espaço e é uma cidade muito bonita, muito agradável. Acho que ela teve o seu ápice como cidade, mas é uma das cidades que eu enxergo que teria esse retorno.