Sandro Guerra estreou em mais um grande desafio: a minissérie Pssica (Gabrielle Santos/ Afrorec/ Divulgação) Com 41 anos de carreira no teatro, cinema e televisão, o ator recifense Sandro Guerra estreou em mais um grande desafio: a minissérie Pssica, produção original da Netflix dirigida por Fernando e Quico Meirelles. Na trama, ambientada na Amazônia atlântica, ele dá vida a Amadeu, um policial aposentado, solitário, íntegro e de grande coração, que se vê diante de um dilema ao procurar por Janalice, jovem raptada pelo tráfico humano. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Além da minissérie, Guerra celebra outros trabalhos de peso: está no elenco do longa Antônio Odisseia, de Thales Banzai, previsto para 2026, e também em Geni e o Zepelim, de Anna Muylaert. Reconhecido pela versatilidade, o ator já passou por personagens densos e complexos, de vilões a figuras paternas. Como foi o processo de preparação para interpretar Amadeu em Pssica? Foi bem bacana. Quem me conduziu foi a Fátima Toledo - que dispensa apresentações - e logo nós definimos que o Amadeu era um homem bom, reservado, solitário, de poucos amigos e honesto. Foram muitos jogos que nós fizemos para trazer as características do personagem, como, por exemplo, a coisa de ele não rir, de ter um semblante sempre muito fechado, sem se preocupar em ser simpático. A simpatia dele teria que brotar de suas ações, ou seja, ele teria que conquistar a simpatia do público, por ser um homem bom, honesto e simples. A minissérie aborda temas muito delicados, como o tráfico humano. Qual foi o impacto emocional de trabalhar com uma história tão intensa? É difícil porque, apesar de ser uma obra ficcional, a gente sabe que é uma realidade vivida em diversas cidades não apenas brasileiras e imaginar um ser humano sendo traficado, como se fosse uma coisa, como um pedaço de carne para a exploração sexual, é muito forte. Tem inclusive um momento que um dos traficantes, no primeiro episódio, diz para a Janalice: “Você tem que ter cuidado com esse corpinho porque agora ele não é mais seu”. É muito forte, entende? E aí você começa a pensar na sua filha, sua mãe, sua irmã, suas amigas... Nossa, é muito angustiante! Você já mencionou que Amadeu é um homem solitário, mas de grande coração. Como conseguiu equilibrar essas características no personagem? Eu penso que nem todo solitário é um amargurado. Conheço pessoas que lidam muito bem com a coisa de serem sozinhas e que são muito bacanas. No trabalho do ator, você traz muito das suas vivências. Eu, particularmente, não crio vivências. Aproveito as minhas próprias e aí crio em cima delas. O que você espera que o público tire de reflexão ao assistir Pssica? Muitas coisas! Espero que pais e mães revejam seus relacionamentos com seus filhos e filhas; espero que fiéis revejam suas relações com seus líderes religiosos e suas comunidades e até mesmo com Deus. Porque Deus não é essa coisa vingativa e ele faz com que seja possível aprender com nossos próprios erros. Pais e mães não devem ser algozes, mas sim pessoas que protegem, que orientam, que são severas, claro, mas que são justas e amorosas. Por mais difícil que isso possa ser, espero que o poder público pense, implemente e acompanhe de perto políticas públicas de enfrentamento ao tráfico humano... Enfim, espero que Pssica possa contribuir muito positivamente para o debate. Além da minissérie, você tem outros projetos, como Antônio Odisseia e Geni e o Zepelim. Como é transitar entre personagens tão diferentes - de vilão a pai protetor? É maravilhoso! Porque tudo que um ator quer é sair da zona de conforto. E nada melhor do que fazer dois personagens tão opostos, tão antagônicos, praticamente em paralelo. Como bem disse Artaud, “o ator é o atleta das emoções”. Sandro é um dos destaques de Pssica, dirigida por Fernando Meirelles e Quico Meirelles (Divulgação) Ao longo dos seus 41 anos de carreira, quais trabalhos você considera mais desafiadores e por quê? Cada trabalho tem seus próprios desafios e peculiaridades. Cada trabalho tem seu próprio processo de criação. Mas poderia citar o Ribamar, de Cangaço Novo (série do Prime Video). Ele é um grande desafio porque por ser um personagem episódico e a trama daquele episódio recair sobre ele. O Ribamar é o centro do conflito, um personagem de poucas falas, ficando nos olhos e na partitura corporal grande parte do que ele diz. É um personagem incrível e pelo qual tenho muito carinho. Você já interpretou vilões e personagens complexos. Qual é o segredo para dar humanidade a figuras moralmente ambíguas? Descobrir sua humanidade. Todos têm uma humanidade. Todos têm fragilidades, idiossincrasias. Em termos de ser humano, nada é exato. Somos repletos de camadas, de nuances. Somos muito complexos, então não dá para simplesmente vilanizar ou endeusar quem quer que seja. Acredito que o caminho é encontrar a humanidade daquele ser e defendê-la com unhas e dentes. Trabalhar com diretores como Fernando Meirelles e Anna Muylaert foi marcante? Trabalhar com profissionais dessa grandeza é, antes de tudo, um aprendizado. Quando você pensa Fernando Meirelles, você de imediato já se reporta a Cidade de Deus e depois você lembra de Ensaio Sobre a Cegueira, e O Jardineiro Fiel, e Dois Papas, saca? Quando você pensa Anna Muylaert, aí você pensa Que Horas Ela Volta, Mãe Só Há Uma, A Melhor Mãe do Mundo. Então, estar em um set, sendo dirigido por figuras como essas, é incrível porque a relação ator-diretor tem que ser de muita confiança. Afinal, é o diretor ou diretora quem conduz os processos, é ele ou ela quem sabe onde tudo aquilo vai dar e muitas vezes o ator está num voo cego. Isso dá uma adrenalina! É massa! Qual tipo de personagem ou papel você ainda gostaria de interpretar que ainda não teve a oportunidade? Não tenho muito essa vibe, sabe? Eu gosto de interpretar! Gosto de descobrir, de criar, de construir e defender meu personagem. Revelar sua humanidade.