Ator Rupa Figueira vive Mussum em Adorável Trapalhão – O Musical (Fernando Tavares/Divulgação) Interpretar Mussum no palco não é apenas um exercício de memória afetiva, mas de precisão corporal, escuta cênica e responsabilidade histórica. Em Adorável Trapalhão – O Musical, que estreia na próxima quinta no teatro do Sesc do Rio de Janeiro, Rupa Figueira, de 23 anos, mergulha na trajetória dos Trapalhões e no legado de um dos maiores comediantes brasileiros, refletindo sobre representatividade, evolução do teatro musical e o papel político do humor. Natural da Zona Leste de São Paulo, Rupa começou na atuação aos 15 anos no Centro Cultural da Penha. Você interpreta o Mussum em Adorável Trapalhão – O Musical. Como foi o primeiro contato com esse personagem e qual foi seu maior desafio ao levá-lo para o palco? Com certeza, a construção corporal… Mussum, para além do personagem, era daquele jeito na vida real, então está sendo preciso um trabalho de corpo muito assíduo para uma boa entrega. Você comentou que todo comediante preto no Brasil tem um pouco de Mussum dentro de si. O que desse legado você sente que está presente na sua própria trajetória artística? De primeira são as portas mais abertas para pessoas pretas não só na comédia, mas nos palcos de teatro e também no audiovisual. O musical acompanha a trajetória de Renato Aragão e dos Trapalhões. O que mais te surpreendeu ao mergulhar na história do grupo e nos bastidores dessa época da TV brasileira? O que mais me surpreendeu é o fato deles terem um jogo cênico de improviso insano… Assistir aos Trapalhões com os olhos de estudo é quase como assistir a um jogo de futebol. O tempo todo eles jogam essa bola cênica um para o outro, e a risada é o gol! Você cresceu na Zona Leste de São Paulo e começou a atuar ainda adolescente. Que memórias desse início continuam te guiando como artista hoje? Inúmeras. Estar em uma sala de ensaio trabalhando em um texto novo que não vem nada de fora ou pronto é um verdadeiro primor. Como as influências musicais aparecem no seu trabalho como ator e performer? Tendo que meus últimos trabalhos foram no teatro musical, ter boas referências faz com que meus ouvidos estejam acostumados a ouvir soul, r&b e jazz. Isso faz com que o lugar que eu canto também tenha diretamente essas referências. Você já passou por espetáculos internacionais adaptados para o Brasil, como Meninas Malvadas e Jersey Boys. O que te atrai em contar histórias brasileiras, como a dos Trapalhões, no palco? É voltar para o que eu comecei estudando, teatro brasileiro, e buscar minhas referências nessa atmosfera tão rica. Broadway tem sua leitura, mas não desvalida a nossa cultura teatral, que é muito rica. Na sua visão, como o teatro musical brasileiro tem evoluído em diversidade, temas e linguagem nos últimos anos? Acredito que temos um caminho muito árduo pela frente, mas me sinto extremamente feliz em estar fazendo parte dessa peça, principalmente pelo sentimento de que entendemos a linguagem musical, mas podemos usar para contar também as nossas histórias. O segundo livro mais vendido do mundo é de um autor brasileiro… se tem uma coisa que temos, são histórias e narrativas. Você acredita que a comédia ainda é um território político no Brasil? Como artistas podem usar o humor para provocar reflexão sem perder o entretenimento? Comédia é tempo e expertise para conseguir abordar muitos temas, até os mais críticos, ou que dividem opiniões, e ainda assim arrancar risadas sem ofender ninguém. Inclusive, esse é um trabalho que nós, do Adorável Trapalhão, estamos tendo e tomando muito cuidado. Comédia só é comédia se todos estão se divertindo; não podemos deixar a diversão virar opressão. O que você ainda sonha em fazer na carreira? Acredito que seja no audiovisual, ou até mesmo com futuros personagens no teatro. Ser artista é também lidar com a ansiedade de não saber o próximo passo, mas também projetar bons frutos.