Ator estreia na série britânica Suspect: The Shooting of Jean Charles de Menezes, que conta a história do brasileiro Jean Charles (Nanda Araujo/ Divulgação) Após construir uma sólida carreira na Irlanda, onde atuou por mais de cinco anos na tradicional novela Fair City, Rodrigo Ternevoy começa um novo capítulo em sua trajetória artística. Ele estreia na série britânica Suspect: The Shooting of Jean Charles de Menezes, que conta a história do brasileiro Jean Charles, assassinado pela polícia inglesa em 2005, e no filme brasileiro O Velho Fusca. O ator, que mora na Inglaterra e também é um defensor dos direitos LGBTQIA+, fala sobre seus desafios, conquistas e o desejo de se reconectar com o público do seu país natal. Na série Suspect: The Shooting of Jean Charles de Menezes, você interpreta Giovani, irmão do Jean Charles. Como foi o processo emocional para dar vida a um personagem que carrega uma dor tão profunda e, ao mesmo tempo, precisa ser o pilar da família em meio a uma tragédia real? Em uma tragédia dessa magnitude, só posso imaginar a dor que o Giovani e toda a sua família enfrentaram – e continuam enfrentando – com a ausência do Jean Charles. O meu processo, nesse caso, passou muito pela empatia. Busquei me conectar profundamente com o que eles estavam sentindo naquele momento tão difícil. Li muito sobre o caso, assisti a entrevistas dadas pelo Giovani e por outros familiares, e todo esse material foi essencial para me aproximar da realidade deles. Tentei, com o máximo de respeito, compreender essa dor para conseguir retratar, de forma sincera, não só o sofrimento, mas também a força que ele precisou ter para ser o pilar da família em meio a tamanha tragédia. Você mencionou que sentiu uma conexão imediata com o personagem ao ler o roteiro. Que descobertas mais te impactaram durante a preparação para o papel, principalmente sobre o caso do Jean Charles, que talvez o público brasileiro ainda desconheça? Durante a preparação, muitas coisas me chamaram a atenção, mas uma das mais impactantes foi descobrir como, na época, foi divulgada a versão de que o Jean Charles teria pulado a catraca do metrô e fugido da polícia – algo que mais tarde foi desmentido. Infelizmente, essa informação falsa recebeu muito mais destaque do que os fatos reais, o que acabou distorcendo a percepção pública sobre o caso. A série mostra isso de forma muito clara e sensível, revelando não só as falhas na comunicação oficial, mas também o impacto devastador que tudo isso teve na família e na comunidade. Tem muitos outros detalhes que o público brasileiro talvez ainda não conheça – mas que vão poder descobrir assistindo à série. Sua carreira como ator começou na Irlanda, longe do Brasil, e você se destacou por anos em Fair City. O que mais te marcou nesses anos atuando em uma novela tão tradicional fora do seu país? Foram mais de cinco anos trabalhando em uma produção 100% irlandesa, e eu aproveitei cada momento. Participei de mais de 400 episódios e tive o privilégio de contracenar com grandes nomes da dramaturgia na Irlanda — aprendi muito com cada um deles. Se eu tivesse que destacar algo que mais me marcou, seria a trama sobre violência doméstica em uma relação entre dois homens. Meu personagem, o Cristiano, sofria abusos do parceiro, Will. Essa história teve um impacto enorme na Irlanda, gerou debates importantes e alcançou picos de audiência. Foi uma experiência intensa e extremamente significativa pra mim como ator e como ser humano, por dar voz a um tema tão relevante para a sociedade. Depois de anos na Irlanda, você se mudou com seu marido para a Inglaterra e começou uma nova fase na carreira. Como foi esse recomeço em outro país e quais foram os principais desafios e aprendizados? Sim, depois de 16 anos vivendo na Irlanda, nos mudamos para a Inglaterra, e aqui estou vivendo um verdadeiro recomeço em termos de carreira. É como começar do zero: ninguém conhece meu trabalho, então tenho feito aquele trabalho de formiguinha — me apresentando às pessoas certas, participando de eventos da indústria, e buscando me inserir aos poucos nesse novo mercado. Felizmente, conto com o suporte da minha agente na Irlanda, que tem sido essencial nesse processo, usando seus contatos para divulgar meu nome entre os profissionais da indústria aqui no Reino Unido. Tem sido desafiador, claro, mas também muito estimulante. Recomeçar exige coragem, paciência e persistência — e estou animado com tudo que ainda está por vir. Você também está no filme O Velho Fusca, que estreia este ano no Brasil, no qual interpreta o Tio Beto. Qual a importância de representar um personagem LGBTQIA+ com tanta humanidade e carinho, especialmente no contexto de uma história familiar? Eu me sinto extremamente grato por interpretar um personagem LGBTQIA+ como o Tio Beto. Foi uma experiência muito especial, principalmente por ser uma história familiar, onde temos a chance de mostrar tanto a aceitação quanto os desafios que ainda existem. O Tio Beto é acolhido por grande parte da família, mas também enfrenta o preconceito – aquele que, muitas vezes, é sutil, velado, mas ainda está presente e precisa ser exposto e discutido. Infelizmente, essa é a realidade de muitas pessoas da comunidade LGBTQIA+ em diferentes partes do mundo. Poder dar vida a um personagem que carrega tudo isso com tanta humanidade e carinho é, para mim, uma honra e uma grande responsabilidade. Com uma carreira que mistura projetos na Europa e no Brasil, como você escolhe seus papéis? Há algo específico que você procura em uma história ou personagem antes de aceitar um novo trabalho? Mesmo após mais de 10 anos de carreira, com oportunidades incríveis tanto na Europa quanto no Brasil, ainda sinto que estou construindo e conquistando meu espaço na indústria. A realidade da maioria dos artistas está bem longe do glamour que muitas vezes é mostrado pela mídia — é um caminho cheio de desafios, com muito mais atores do que oportunidades. Por isso, não tenho o hábito de recusar trabalhos, principalmente quando eles me tiram da zona de conforto. Pelo contrário, eu adoro interpretar personagens que estão bem distantes da minha realidade. São eles que mais me fazem crescer como artista. Claro que meus agentes, tanto no Brasil quanto aqui na Europa, já fazem uma espécie de filtro antes que as propostas cheguem até mim, o que ajuda muito a garantir que os projetos tenham alguma conexão com a minha trajetória e objetivos. Você participou recentemente do longa O Pedido Irlandês, da Netflix, e da série natalina The 12 Dates of Christmas, da Hallmark. Como é transitar entre gêneros tão diferentes como o drama, o romance e a comédia? Você tem um gênero favorito? Adoro transitar entre gêneros diferentes — drama, romance, comédia, terror... Acredito que essa variedade me torna um ator mais completo. Afinal, a vida é assim também: tem momentos de alegria, tristeza profunda, paixão intensa… E poder explorar todas essas emoções por meio dos meus personagens é algo muito válido e extremamente gratificante pra mim. Me lembro de quando gravei um longa de terror na Irlanda: precisei raspar o cabelo e usei uma tatuagem temporária na nuca. Durante um bom tempo, andava pelas ruas e percebia que as pessoas me olhavam com certo receio, especialmente as mães com crianças pequenas (risos). Foi uma experiência única, e eu adorei! Cada gênero tem seu desafio e sua beleza, então é difícil escolher um favorito — o que mais me atrai mesmo é a oportunidade de contar boas histórias. Com tantos projetos em andamento e estreias marcadas, como você enxerga os próximos passos da sua carreira? Existe o desejo de trabalhar mais no Brasil, talvez em uma novela ou série nacional? Claro que existe esse desejo! Amo o Brasil e adoraria ter mais oportunidades por aí. Fazer uma novela ou uma série 100% brasileira está, sim, entre os meus sonhos — e acredito que esse momento ainda vai chegar. Algo que escuto com frequência de colegas da indústria é: ‘Por que você quer trabalhar aqui se já tem uma carreira fora?’ E sempre gosto de lembrar uma fala da Fernanda Torres, quando perguntaram a ela sobre ter uma carreira internacional. Ela respondeu com muita sabedoria: ‘Carreira é carreira, não é preciso ter essa distinção!’ E é exatamente assim que eu penso. O que me move é contar boas histórias, seja onde for.