Essa semana minha amiga Flavinha enviou uma foto nossa, as duas com 22 anos. Revivi as décadas que correram tão ligeiras como que assistindo à paisagem acelerada na janela do carro em dia de estrada. Aquela menina jovem e inocente me pregou certa nostalgia, confesso. “Passa rápido, viu?!”, dizia mamãe. Eu, claro, não acreditava, não entendia como o tempo podia ser assim, senhor de si. Flavinha enviou outra foto, ela com o marido, parceiros há anos: “Veja, ele ainda tinha cabelo!”. Quase caí da cadeira porque, realmente, o tempo nos modifica, sem que sequer percebamos. Não lembrava que um dia o Edu tivera cabelo. O tempo passou e nem vi. Tirei uma self e ordenei uma foto ao lado da outra, a de 22 e a de 52 anos. Trinta anos me separam de mim mesma. Recorro às amigas de infância sobre o impacto do tempo em suas vidas. “Como estudei, casei e fui mãe ao mesmo tempo?”, disse a Cris. Penso igual. Durante muitos anos trabalhei de 12 a 14 horas por dia, muitos fins de semana e feriados, sempre arrumava algo para estudar, namorava, curtia as amigas, cuidei do pai com câncer e da mãe, comumente doente. Como dei conta de tudo isso? Será que o excesso de atividades faz mesmo o relógio correr mais rápido? Este ano de 2025, por exemplo, voou. Ontem mesmo era janeiro e eu estava em Itatiba no aniversário do meu afilhado. Agora já estou aqui, escrevendo para a coluna de dezembro. A agenda corrida do ano resultou em oito viagens, muito trabalho e vida social intensa. Será que por causa disso ontem era Carnaval e daqui a pouco é Natal? Faço um teste e fico 10 minutos sentada na varanda de casa sem fazer nada. Só escutando os sons ao redor. Percebo a comunicação dos periquitos que sobrevoam as árvores do bairro, sempre em par. Depois, as crianças jogando futebol na quadra do condomínio. “Joga aqui, aqui!”! Meu gato mia do canto como quem avisa que também vai pausar um pouco. Sinto o tempo escoar e dou uma espiada no celular. Pouco mais de dois minutos se passaram, para mim, uma eternidade, justamente porque nada (ou pouco) fazia. Devemos, então, desacelerar para ganharmos mais tempo? Ou dessa forma perdemos o tempo que sempre nos parece pouco? Difícil dizer. O muito nos estressa, o pouco nos deprime. Lembrei da cena do filme Orgulho e Preconceit” (2006). Em plena Inglaterra do século 19, as irmãs Bennet passam a tarde bordando e tocando piano com a mãe. Como o tempo corria para as mulheres daquela época? Mais devagar que o nosso? Tenho a intuição de que o tempo cronológico tem pressa em qualquer momento e lugar. É possível que essas sensações e teorias sejam uma grande bobagem. Talvez o tempo corra na mesma rapidez de sempre. Afinal, por que todo mundo diz na velhice “Passa rápido!” O dia sempre teve 24 horas, não é mesmo? Não sei. A única certeza que tenho é que o ano de 2026 pode vir na velocidade dele. Eu vou na minha. *Adriana Pimenta é jornalista, escritora e professora de escrita criativa.