(Imagem gerada por IA) “A paisagem da tua palavra é a passagem do mundo. Mas sua fronteira está aberta”, Édouard Glissant Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A cidade como depósito de urgências. Que ideia estreita é essa que aceitamos sem perceber. Empilhamos prédios, nós, o povo do metro quadrado, como se cada laje fosse um troféu silencioso. Compramos, cercamos, substituímos e ainda chamamos de progresso aquilo que apaga os rastros mais delicados da vida. Outro dia, em pensamento, caminhei por uma rua que já soube meu nome. Havia ali um banco torto, uma árvore paciente e um muro que guardava risadas antigas. Hoje, o concreto subiu apressado e no lugar da pausa ergueu-se uma fachada lisa, dessas que não reconhecem ninguém. Fiquei tentando ouvir alguma coisa por entre os carros, como quem procura uma voz dentro d’água. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na memória ainda permanece aquele senhor que varria a calçada todas as manhãs, lembram? Dizia que folha caída também conta história. A padaria da esquina, com cheiro de café cedo, virou vitrine de vidro fechado. E as crianças, que corriam desenhando mapas invisíveis no chão, agora passam ligeiras, como se o tempo tivesse sido empurrado para frente sem aviso. Cuidamos, de fato, dos nossos espaços de encontros e memórias? Ou apenas atravessamos tudo com pressa, aceitando que cada esquina possa ser trocada por outra mais lucrativa? Há passagens urbanas que nos ensinaram a existir, que acolheram silêncios, que testemunharam afetos discretos. Elas também precisam de cuidado, de escuta, de permanência. Na memória, minha avó ainda se senta na porta ao fim da tarde. Olha o movimento e tenta reconhecer o bairro nos rostos que passam. “Mudou tudo”, ela diz, mas continua ali, como quem segura um fio invisível que liga o agora ao que já foi. Há uma sabedoria nisso, um gesto de resistência que não faz barulho. A expansão cresce como argumento único, desenhando mapas que ignoram o que não cabe na planta. Casas dão lugar a torres, quintais desaparecem e com eles vão embora os encontros sem hora marcada. Fica mais difícil saber onde começamos, onde aprendemos certos gestos, onde deixamos pedaços de nós. O escritor e filósofo Édouard Glissant chama de Poética da Relação esse emaranhado de vínculos que nos constitui. É quando percebemos que cada lugar carrega mais do que função, carrega presença. E que conhecer um espaço não é apenas ocupá-lo, mas também escutá-lo, permitir que ele nos transforme devagar. Há uma delicadeza nas cidades que pede atenção. Está nas calçadas gastas, nas janelas abertas, nos caminhos repetidos até virarem costume. Quando esses traços desaparecem, algo em nós também se desfaz, mesmo que não saibamos nomear. Não é isso que acontece quando uma rua inteira perde seu sentido de vizinhança? Quando um largo deixa de ser ponto de encontro e vira passagem apressada? Quando a memória coletiva é tratada como obstáculo ao novo desenho urbano? Há um tipo de esquecimento que se constrói com máquinas e contratos. Preservar não é impedir o movimento. É lembrar que há histórias vivendo nos espaços e que elas merecem continuidade. É reconhecer que o valor de um lugar não se mede apenas em cifras, mas naquilo que ele sustenta em silêncio: vínculos, lembranças, pertencimento. A cidade como depósito de urgências, que ideia estreita. Prefiro caminhar devagar pelas ruas que ainda me reconhecem, tentando aprender com elas o cuidado que ainda nos falta. Talvez seja aí, nesse gesto simples, que comece outra forma de habitar.