Pintor reuniu a garotada no Pae Cará para decorar a rua e torcer pela Seleção (Reprodução) A pergunta chega sem aviso em mais um junho de Copa do Mundo. Surge entre fotografias antigas, conversas de família e uma lembrança que insiste em permanecer. Havia um tempo em que a Copa não começava no apito inicial. Começava muito antes, na rua. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! As crianças saíam de casa carregando latas de tinta, pincéis gastos e uma certeza difícil de explicar. Não importava se a seleção jogava bem ou mal. Não importava quem era o técnico ou qual era a escalação. O que valia era o desenho que surgia no asfalto, as bandeiras improvisadas, os gols imaginados antes mesmo de a bola rolar. Era uma construção coletiva, um mutirão sem convocação oficial. Um vizinho trazia a tinta, outro emprestava a escada, alguém desenhava melhor e assumia a missão de contornar a taça. Os demais preenchiam os espaços. No fim da tarde, a rua parecia pertencer a outro país inventado por moradores que acreditavam que o futebol podia suspender a rotina por algumas semanas. Ansiedade era palavra que ninguém usava, mas estava lá no calendário marcado, na contagem dos dias, na dificuldade de dormir na véspera dos jogos, na camisa separada sobre a cadeira e no encontro combinado para assistir à partida na casa de um amigo. O futebol criava uma espécie de linguagem comum. Durante a Copa, todos tinham algo a dizer: a criança, o aposentado e o comerciante da esquina. A partida do dia seguinte atravessava conversas, aproximava pessoas e oferecia uma pausa para as preocupações que continuavam existindo, mas pareciam menos pesadas. Hoje, quando a Copa se aproxima, a sensação é diferente. Os jogos seguem mobilizando milhões, as redes sociais produzem comentários em velocidade impossível de acompanhar e os lances circulam pelo mundo em segundos. Ainda assim, algo parece ter ficado pelo caminho. Não é apenas saudade da infância. Saudade costuma simplificar aquilo que o tempo transformou. A questão talvez seja outra. Quando éramos crianças, a Copa ocupava um espaço raro. Era um acontecimento aguardado. Havia espera. E a espera tem um papel importante na construção das memórias, pois amplia os momentos, dá valor ao que está por vir. Hoje quase tudo acontece imediatamente. A notícia chega antes do café, o vídeo aparece antes da conversa e o comentário surge antes da experiência. Talvez tenhamos perdido não a paixão pela seleção, mas a capacidade de preparar o terreno para ela. As ruas já não recebem os mesmos desenhos e os amigos nem sempre se encontram na mesma sala. Muitas vezes assistimos aos jogos cercados por mensagens, notificações e outras distrações. Estamos presentes e ausentes ao mesmo tempo. Mas algumas imagens permanecem. Resiste o cheiro da tinta secando no asfalto, o barulho das crianças correndo entre bandeiras, o velho rádio ligado na janela de alguma casa e a lembrança de uma rua inteira esperando pelo mesmo acontecimento. Penso nisso quando vejo fotografias das antigas Copas. Não sinto falta apenas das vitórias ou dos jogadores que se tornaram personagens da memória nacional. Sinto falta daquela experiência compartilhada que transformava desconhecidos em companheiros de arquibancada. Talvez seja por isso que a pergunta continue voltando: Quando foi que deixamos de pintar as ruas? Talvez tenha sido quando crescemos, quando o tempo começou a correr mais depressa e quando passamos a acreditar que os grandes acontecimentos acontecem apenas dentro dos estádios.