Larissa Sanches: "Fomos ensinados que o sucesso exige sacrifício total; desconstruir esse mito é fundamental" (Divulgação) Abandonar a imagem da profissional que dá conta de tudo foi uma das decisões mais importantes da trajetória da santista Larissa Sanches. Publicitária e executiva de marketing com duas décadas de experiência em multinacionais, ela transformou experiências pessoais e profissionais em reflexão sobre liderança, maternidade, vulnerabilidade e saúde mental no ambiente corporativo. Larissa é uma das 24 profissionais que participam da publicação Carreira é Ação, organizado por Luciano Santos e publicado pela Editora Gente. O livro, lançado em versão impressa em 10 de julho, já chegou à terceira edição e vendeu mais de 7 mil exemplares em um mês. No capítulo A Coragem de Ser Humano, ela questiona a ideia de que sucesso necessariamente vem acompanhado de sacrifício, exaustão e perfeição. A partir da própria experiência — incluindo a gravidez que interferiu em uma oportunidade profissional e o período em que tentou conciliar carreira, maternidade e a chamada “capa de super-herói” — Larissa defende uma liderança mais humana, sem abrir mão da alta performance. Nesta entrevista, ela fala sobre o preço da perfeição, a força da vulnerabilidade e por que, para ela, ser humano pode ser justamente o diferencial de uma liderança de alta performance. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Você assina o capítulo A Coragem de Ser Humano. O que a motivou a escolher esse tema e por que ele é tão importante no ambiente corporativo? O tema foi escolhido com a intenção de ajudar a curar a exaustão crônica e a culpa paralisante que nascem da tentativa irreal de equilibrar tudo perfeitamente. É um assunto urgente hoje, porque estamos testemunhando um cenário de burnout em massa e perdendo talentos extraordinários, que não suportam mais sustentar essa fachada de perfeição. Fomos ensinados culturalmente que o sucesso exige sacrifício total, e desconstruir esse mito é fundamental para manter talentos e promover a saúde mental. No livro, você fala sobre a capa de super-herói. Em que momento da sua carreira percebeu que sustentar essa imagem tinha um custo alto? Já vinha notando há alguns anos que a capa de super-herói era muito pesada, mas o ponto de inflexão ocorreu em uma segunda-feira caótica, no começo da manhã. Eu já havia respondido e-mails, arrumado lancheiras, deixado os filhos na escola, treinado e finalizado uma apresentação para a diretoria, mas havia esquecido de tomar café. Quando alguém comentou que eu “parecia ter tudo sob controle”, notei que meu esmalte estava descascado e percebi o imenso conflito interno. Naquele dia, decidi que não queria mais viver daquela forma e, na reunião seguinte, fui transparente com meu time sobre a minha exaustão. E o que recebi de volta, ao assumir essa vulnerabilidade, foi acolhimento e identificação, principalmente de outras mulheres. Com duas décadas de atuação em multinacionais, quais foram os principais desafios que moldaram sua forma de liderar equipes? Um dos principais foi enfrentar a síndrome da mulher-maravilha, que é a pressão esmagadora para ser uma líder impecável, uma mãe onipresente e ainda cuidar de mim. Outro desafio marcante ocorreu na minha primeira gravidez, quando preenchia todos os requisitos para uma vaga, mas fui preterida por estar grávida. Tal momento, aliado ao retorno da licença-maternidade em que me vi aceitando migalhas corporativas, moldou minha visão de que a parentalidade é, na verdade, uma escola intensiva de liderança e que a força está na vulnerabilidade. O livro defende que carreira não é uma questão de sorte, mas de ação. Qual foi a decisão mais corajosa que você tomou e que mudou os rumos da sua trajetória? Profissionalmente, uma das decisões mais corajosas que tomei foi a de nunca me acomodar com situações confortáveis, que a longo prazo não agregaram à minha carreira nem onde eu buscava chegar. Mas, em termos de comportamento, sem dúvidas a decisão mais corajosa foi abandonar a capa de super-herói. Quando questionei a aceitação de um cenário limitante após a maternidade e decidi expor minha vulnerabilidade para a minha equipe e lideranças, criei uma rede de apoio real. Abandonar a capa transformou a performance do nosso time, que já era boa, em algo excepcional, pois paramos de focar em sermos perfeitos e nos tornamos uma equipe de verdade. Muitas pessoas sentem a pressão de equilibrar trabalho, família, autocuidado e crescimento profissional. Que conselhos você daria para quem vive esse conflito diariamente? Meu principal conselho é: equilíbrio perfeito não existe. Por isso é tão importante estabelecer uma lista de atividades diárias “não negociáveis”, para proteger o seu bem-estar integral, incluindo na agenda itens como atividade física, terapia e tempo com a família. Esses ‘nãos’ diários são fundamentais para blindar o seu sim mais importante. Recomendo também redefinir o que é sucesso para você de forma autêntica. Além de praticar a vulnerabilidade com sua equipe, o que gera a confiança necessária para sustentar a altíssima performance sem exaustão. Como santista, que valores, aprendizados ou características de Santos você leva para o seu dia a dia como líder e executiva de marketing? O fato de ter nascido em Santos, de viver na cidade a minha infância e adolescência, e nunca ter perdido esse vínculo me ajuda muito em diversas frentes na carreira. O santista tem uma flexibilidade natural, uma simpatia e uma certa simplicidade em enxergar a vida que abrem muitas portas no mundo corporativo. Somos uma cidade turística e portuária, entrada para cargas e imigrantes de todo o mundo, creio que por isso desenvolvemos a capacidade de acolher. Creio ainda que o contato com nossas praias nos leva a entender e respeitar ciclos da natureza. Na sua visão, as empresas estão mais abertas a uma liderança humanizada ou ainda prevalece a cultura da alta performance a qualquer custo? Ainda enfrentamos grandes barreiras culturais. O líder é frequentemente pintado como alguém que não falha e não tem vida pessoal, e o potencial de liderança de grupos diversos, como o de mães, continua sendo subestimado. Muitas pessoas ainda acreditam que o valor delas é medido pela exaustão e têm medo de que o equilíbrio seja visto como falta de foco. Contudo, a liderança humanizada é o único caminho para um sucesso sustentável, pois equipes excepcionais se apoiam em segurança psicológica. Eu acredito que é possível aliar liderança humana com alta performance - já vi diversos exemplos na prática. Com a nova Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que classifica saúde mental como risco ocupacional, as empresas precisam cada vez mais se preparar para encarar tal realidade. O que você espera que o leitor leve consigo depois de ler o seu capítulo e fechar o livro Carreira é Ação? Espero que o leitor abra espaço para o humano, que passe a acolher vulnerabilidades próprias e da equipe, aprendendo a pedir ajuda e a celebrar pequenas vitórias. A verdadeira liderança requer foco e muito esforço, mas não inclui exigir a estrita perfeição. Por fim, espero que descubram que o sucesso que buscam já está dentro deles, só esperando a permissão para ser inteiro.