Se antes o diagnóstico vinha acompanhado de um rótulo genérico “é uma virose”, hoje a medicina já consegue identificar com precisão muitos dos vírus responsáveis por infecções respiratórias. Um deles é o vírus sincicial respiratório (VSR), ainda pouco conhecido do público, mesmo diante de tantos alertas feitos nos últimos anos - inclusive em reportagens no domingo+. E uma constatação resume bem sua presença silenciosa: você pode nunca ter ouvido falar dele, mas é bem provável que ele já tenha passado por você. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Com a chegada do outono, período de maior circulação de vírus respiratórios no Brasil, o VSR volta ao radar de especialistas, principalmente entre adultos com 50 anos ou mais e pessoas com doenças crônicas. Dados mostram que uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até três outras, favorecendo sua disseminação. Embora muitas vezes associado à bronquiolite em bebês, o VSR também representa risco importante para adultos. Estima-se que um em cada quatro infectados possa evoluir para pneumonia, e o vírus já responde por cerca de 15% dos casos da doença. Entre pacientes com mais de 50 anos hospitalizados por síndrome respiratória aguda grave associada ao VSR, a taxa de mortalidade pode chegar a 14%. Outro ponto de atenção é a possibilidade de reinfecção. Diferentemente do que muitos imaginam, ter contato com o vírus uma vez não garante proteção definitiva. O VSR pode infectar mais de uma vez ao longo da vida, especialmente em pessoas com o sistema imunológico mais vulnerável. Além disso, o impacto da infecção pode ir além da fase aguda. Estudos indicam que as consequências podem persistir por meses ou até anos, sobretudo em pessoas com comorbidades. Nesses casos, o risco de hospitalização aumenta, com impacto significativo na saúde geral. Desconhecimento Pesquisa encomendada pela GSK aponta que 71% dos adultos com 50 anos ou mais desconhecem a existência de vacina contra o VSR, e menos de um terço sabe o que significa a sigla. O levantamento também mostra uma percepção distorcida de risco: embora 72% reconheçam maior vulnerabilidade a infecções respiratórias, apenas 27% se veem, de fato, sob risco elevado de complicações. “O VSR tem sido a principal causa de infecção respiratória grave no Brasil no primeiro semestre nos últimos anos, e isso tende a se repetir”, afirma a infectologista Lessandra Michelin. “A falta de conhecimento sobre a vacina é um sinal de alerta, especialmente entre pessoas com comorbidades. Complicações E os efeitos do VSR não se restringem ao sistema respiratório. Estudos recentes mostram que o vírus pode atuar como gatilho para descompensação de doenças crônicas e até eventos cardiovasculares. “O risco de complicações não é apenas pulmonar. Há associação com aumento de eventos cardíacos, especialmente em pacientes já vulneráveis”, destaca o cardiologista Mucio Tavares. Entre pessoas com doenças como diabetes, DPOC e problemas cardíacos, o risco de hospitalização pode aumentar significativamente. Além disso, há evidências de que a vacinação também contribui para reduzir desfechos cardiovasculares relacionados à infecção. Especialistas reforçam que o envelhecimento do sistema imunológico — processo conhecido como imunossenescência — aumenta a vulnerabilidade a infecções. “A partir dos 50 anos, e principalmente em idosos, o organismo perde parte da capacidade de resposta imunológica”, explica a geriatra Maisa Kairalla. “Isso torna infecções como o VSR potencialmente mais graves.” A pneumologista Rosemeri Maurici acrescenta que pacientes com doenças respiratórias crônicas, como asma e DPOC, estão entre os mais suscetíveis a complicações. Já o endocrinologista Rodrigo Mendes trouxe um relato pessoal durante o encontro. Ele perdeu a mãe em decorrência de complicações associadas ao VSR, o que reforça o impacto real da doença. “É um vírus que muitas vezes passa despercebido, mas pode ter consequências devastadoras”, destacou. Os dados e alertas foram discutidos durante um encontro realizado na semana passada, em São Paulo, que reuniu especialistas de diferentes áreas em uma mesa-redonda sobre o tema. O evento foi promovido pela farmacêutica GSK. Proteção A vacinação é hoje uma das principais estratégias de proteção para adultos mais velhos e pessoas com comorbidades. Além disso, medidas simples continuam fundamentais, como higienizar as mãos com frequência, evitar contato com pessoas doentes e permanecer em casa ao apresentar sintomas. “O diálogo entre médico e paciente ainda precisa avançar quando o assunto é VSR”, observa o pediatra Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Segundo ele, ampliar o conhecimento da população é essencial para aumentar a cobertura vacinal.