As mulheres responderam por mais de 60% das mortes por hipertensão arterial associadas ao consumo exagerado de álcool (Divulgação / Freepik) Lá fora fazia sol, mas dentro de mim as nuvens tomavam conta. Era o dia de recolher os pertences da minha mãe, falecida na véspera. As roupas, os sapatos, a louça, objetos que resgatavam memórias de uma vida inteira. Já se passaram 12 anos, mas me lembro como se fosse hoje: não teria tido forças para enfrentar aquele dia se uma amiga não tivesse largado o trabalho para me ajudar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Noutra vez, depois de um rompimento amoroso particularmente doloroso, foi outra amiga que me acolheu. Chegou à minha casa às duas da madrugada com uma garrafa de vinho e um ouvido gigante. Amparou meu choro, escutou palavras carregadas de mágoa e conseguiu me devolver a esperança de que o amor um dia voltaria. Quando jovem, enviei um currículo para São Paulo e menti informando que morava na capital, pois ouvi dizer que morar em Santos reduziria minhas chances. Deu certo. Passei na entrevista e o endereço próximo fez diferença. Porém, saí de lá desesperada: como faria? A solução veio de outra amiga que me ofereceu seu apartamento vazio, sem cobrar nada mais que o condomínio. O contrato foi assinado com aquilo que sustenta as grandes amizades: confiança. O que seria de nós, mulheres, sem nossas amigas? Elas não apenas compartilham nossas alegrias. Elas nos sustentam quando a vida desaba. Mulheres que conseguem calçar nossos sapatos e enxergar o mundo por alguns instantes como se fossem nós. Uma rede de afeto capaz de compreender nossas dores porque, muitas vezes, também as viveu. Você já deve ter ouvido dizer que mulher é invejosa, venenosa e competitiva. Durante muito tempo, uma sociedade construída pelos homens e para os homens alimentou essa narrativa, estimulando a competição entre elas. Muitas acreditaram (talvez ainda acreditem). Eu, não. Minhas amigas sempre foram parceiras de vida, embora algumas tenham seguido outros caminhos ao longo da jornada. Acontece. Afinal, a vida é feita de encontros, despedidas e transformações. Mantenho amizades da infância, da adolescência, da juventude, do agora. Conhecem minha biografia, testemunharam minhas versões. Aplaudiram quando saí de casa recém-formada, quando larguei tudo para morar em outro país, quando publiquei meu livro. Sofreram comigo quando meu pai morreu, quando minha mãe adoeceu, quando voltei dos Estados Unidos com as malas vazias (as de verdade e as emocionais) e quando meu irmão quase se foi. Nunca me abandonaram. Seria a amizade o novo amor romântico? Essa reflexão instigante é proposta pela psicanalista Ingrid Gerolimich, no livro Para Revolucionar o Amor: a crise do amor romântico e o poder da amizade entre mulheres. Em uma época marcada por relações superficiais, desrespeitosas e, muitas vezes, violentas, talvez seja na amizade entre mulheres que encontremos o acolhimento, a escuta e a segurança emocional de que tanto precisamos. Não se trata de substituir o amor romântico, mas de reconhecer o poder revolucionário da amizade. Ela nos fortalece, amplia nossa liberdade e nos lembra que não precisamos atravessar a vida sozinhas. Amanhã, 20 de julho, é o Dia do Amigo. E, embora eu tenha amado todos os cachorros que passaram pela minha vida, é para as minhas "cachorronas" que vai esta homenagem. Meninas, seguimos juntas, resistindo.