(Divulgação) Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no final do ano passado revelou que 61 milhões de brasileiros sentiram cansaço ou esgotamento mental de forma constante em 2025, impactos em especial pelas pressões econômicas. Mais recentemente, dados do Ministério da Previdência Social mostraram que os afastamentos por burnout nas empresas cresceram 823% em quatro anos no país. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Esses números desnudam um cenário em que o trabalho se consolida como eixo central em quase tudo que nos define como pessoas e estabelece nossos relacionamentos e conceitos de validação social. Mesmo que temas como o fim da escala 6x1 revigorem o debate sobre o lado pernicioso disso, é importante que avancemos para algo além: o direito de não fazer nada. Nos anos 1980, a banda Titãs já dizia: A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída para qualquer parte. A busca por mais tempo livre, motor das campanhas em defesa da redução de jornadas, não deve ter apenas como argumento a presença no cotidiano familiar. Precisamos discutir outras pressões como a ditadura do consumo e a poluição mental causada pelo excesso de telas e conteúdos digitais. Talvez esteja aí uma das maiores armadilhas do nosso tempo. Lutamos para conquistar horas livres, mas frequentemente entregamos esse espaço a uma engrenagem que transforma qualquer intervalo em oportunidade para consumir informações, acompanhar notificações, responder mensagens ou acreditar que estamos perdendo algo importante. Nas últimas décadas, consolidou-se a percepção de que vivemos na chamada Era da Informação, marcada por um volume de dados sem precedentes na história. Um dos exemplos mais conhecidos dessa transformação foi popularizado pelo The New York Times, ao destacar que uma única edição semanal do jornal continha mais informação do que uma pessoa comum teria acesso durante toda a vida na Inglaterra do século 17. Embora a comparação tenha caráter ilustrativo, traduz de maneira eloquente a velocidade com que o conhecimento passou a ser produzido, distribuído e consumido, alterando profundamente nossa relação com a atenção e com o tempo. Essa lógica também contamina a forma como encaramos o próprio tempo livre. Não basta mais descansar; é preciso descansar da maneira considerada correta. Há aplicativos para medir a qualidade do sono, metas para leitura, listas de filmes que precisam ser vistos, viagens que devem render fotografias, cursos para ocupar os finais de semana e até rotinas de lazer planejadas para aumentar a produtividade na segunda-feira. O ócio, que durante séculos foi reconhecido como espaço para contemplação, criatividade e reflexão, passou a exigir desempenho. Talvez por isso o direito de não fazer nada ainda desperte tanto incômodo. Permanecer algum tempo sem produzir, sem consumir conteúdos e sem justificar a própria inatividade parece incompatível com uma sociedade que associa valor pessoal ao rendimento constante. No entanto, foi justamente do tempo desocupado que nasceram muitas das grandes descobertas, manifestações artísticas, conversas memoráveis e ideias capazes de transformar a realidade. A imaginação dificilmente floresce quando a mente permanece ocupada o tempo inteiro. Defender jornadas de trabalho mais humanas continua sendo uma pauta necessária, mas perderá parte de seu sentido se não vier acompanhada da recuperação do valor do tempo desocupado. Queremos caminhar sem destino, ler algumas páginas sem pressa, observar o movimento da rua pela janela ou simplesmente permanecer em silêncio, sem culpa e sem a necessidade de oferecer explicações.