Cillian Murphy e Barry Keoghan em Peaky Blinders: O Homem Imortal (Divulgação/Netflix) O filme Peaky Blinders: O Homem Imortal encerra a trajetória de Thomas Shelby, iniciada na série exibida entre 2013 e 2022. Mas, diferentemente do prestígio consolidado ao longo de mais de uma década, o desfecho se revela aquém do esperado. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Lançado no último dia 20 na Netflix, o longa-metragem alcançou 25 milhões de visualizações em três dias — resultado da expectativa de fãs acumulada por quatro anos. Ainda assim, a narrativa se afasta dos fundamentos que sustentaram a obra original. A série ficcional foi criada por Steven Knight e se inspira na gangue que atuou em Birmingham entre o fim do século 19 e o início do 20. Ao longo de seis temporadas, a produção construiu um drama centrado na ascensão e nos conflitos internos da família Shelby, tornando-se um fenômeno internacional. No centro da narrativa está Thomas Shelby, interpretado por Cillian Murphy, um veterano da Primeira Guerra Mundial, um cigano oriundo da classe trabalhadora, cuja trajetória combina ambição, cálculo estratégico e amor à família. Tommy é um personagem complexo, dividido entre o poder e os traumas emocionais decorrentes da guerra, da violência que enfrenta no seu dia a dia e do sentimento de culpa pelas mortes de seus familiares. O filme, novamente escrito por Steven Knight e dirigido por Tom Harper, tinha como desafio encerrar esse arco e indicar uma continuidade, mas a narrativa segue por um rumo que contradiz a própria natureza do protagonista. Tommy escolhe o filho mais velho, Duke (Barry Keoghan), como seu sucessor na organização criminosa, mas o personagem está longe de sustentar esse legado sem a inteligência estratégica, o controle emocional e a astúcia que definem Thomas Shelby. Duke surge como impulsivo, violento e moralmente vazio, alguém que explora os seus e busca alianças por pura ambição. Ambientado em 1940, em meio à Segunda Guerra Mundial, o longa desenvolve uma trama envolvendo uma conspiração com um agente nazista (Tim Roth), o que força Tommy a sair do exílio para, mais uma vez, corrigir os erros da própria família. Ao longo de seis temporadas praticamente irretocáveis, Thomas Shelby demonstrou que faria qualquer coisa para proteger os seus. Logo, a decisão de fazer Tommy matar Arthur (Paul Anderson) é uma ruptura importante no enredo. A relação entre os irmãos sempre foi um dos pilares emocionais da narrativa, marcada por lealdade, conflito e afeto. O fim de Arthur, dessa forma, desconstrói a própria história. O mesmo ocorre com Ada Shelby (Sophie Rundle), a voz do bom senso na conexão familiar, cuja morte é apressada, sem peso dramático e completamente deslocada. A ausência de personagens importantes na relação de Thomas, sem nenhuma justificativa relatada por nenhum personagem em cena, como a ex-esposa Lizzie (Natasha O’Keeffe), o filho Charles (com Grace) e o irmão Finn (Harry Kirton), também compromete a narrativa proposta. Em vez deles, Knight optou por inserir a personagem Kaulo (Rebecca Ferguson), tia de Duke, com a função de persuadir Tommy a escolher o sobrinho como o seu sucessor, o que era totalmente dispensável na dramatização. Visualmente, o filme preserva parte da estética estilizada e nostálgica que consagrou a série, mas o final destinado a Thomas Shelby poderia ter sido melhor explorado. Em suma, O Homem Imortal falha justamente onde mais importava: na fidelidade à essência de Peaky Blinders. Definitivamente, esse capítulo final da história de Tommy Shelby não foi entregue por ordem dos Peaky Blinders.