A mítica lagoa circular nas montanhas de Cundinamarca é um convite à aventura, ao mistério e à superação. Mas prepare-se: a altitude não perdoa. No alto das montanhas andinas da Colômbia, cercada por um anel perfeito de vegetação nativa e silêncio ancestral, repousa uma das joias mais enigmáticas da América do Sul: a Lagoa Guatavita. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Localizada cerca de 3 mil metros acima do nível do mar, a cerca de 70 quilômetros de Bogotá, ela combina história, natureza e mitos que sobrevivem há séculos — tudo isso num cenário de tirar o fôlego, literalmente. Famosa por sua forma circular quase perfeita, a lagoa tem origem vulcânica e é considerada sagrada pelos povos originários da região. De cima, ela parece um olho da terra — uma cratera serena que guarda os segredos de uma das lendas mais intrigantes do continente: a do Eldorado. Foi ali que os indígenas muiscas realizavam cerimônias religiosas jogando oferendas de ouro nas águas calmas em homenagem à deusa das águas. Esse ritual místico atraiu a cobiça dos colonizadores espanhóis, dando início a séculos de obsessão e exploração. A lenda de que haveria toneladas de ouro no fundo da lagoa motivou diversas tentativas de drenagem ao longo da história. No século 16, os espanhóis abriram um canal para escoar parte da água. Já em 1911, empresários ingleses baixaram significativamente o nível da lagoa com bombas e escavações. Pouco encontraram além de algumas peças cerimoniais, hoje expostas em museus. O verdadeiro tesouro, no entanto, parece ser mesmo a experiência mística e visual do lugar. Para visitar a Lagoa Guatavita, é obrigatório o acompanhamento de guias credenciados. A região é uma reserva natural e patrimônio cultural, e o controle é essencial para preservar o ecossistema. A entrada custa cerca de 20 mil pesos colombianos (aproximadamente R\$ 25) por pessoa, e os passeios ocorrem em grupos a cada meia hora, todos com explicações históricas e ambientais durante o trajeto. A trilha que leva até a lagoa exige preparo — ou, ao menos, disposição para encarar 1,5 km de subida em ziguezague por trilhas de terra, que demandam mais do que pernas fortes: exigem pulmões preparados para a altitude acima dos 3 mil metros. Para quem vem do nível do mar, como eu, cada passo é sentido no peito. O coração acelera, a respiração encurta e há momentos em que parece que ele vai sair pela boca. Mas a chegada recompensa: o visual é simplesmente hipnotizante. A trilha que leva até a lagoa exige preparo — ou, ao menos, disposição para encarar 1,5 km de subida em ziguezague por trilhas de terra, que demandam mais do que pernas fortes: exigem pulmões preparados para a altitude acima dos 3 mil metros (Bruno Rios/AT) Do mirante mais alto, a visão da lagoa é mágica. O contraste entre o verde escuro da mata, o azul esverdeado das águas e o céu que parece mais próximo cria uma atmosfera quase espiritual. Não há barcos, não há ruídos mecânicos. Apenas o vento e o som dos pássaros andinos, compondo uma trilha sonora natural para a contemplação. Além do passeio em si, a visita é uma aula viva sobre o respeito aos povos originários e à natureza. Os guias, em sua maioria descendentes de indígenas da região, falam com orgulho da herança muisca e reforçam o papel da Guatavita como símbolo de resistência cultural. "Não é só uma lagoa. É um lugar sagrado", repetia o guia durante o trajeto que fizemos na última semana. Espaço para cerimônias dos indígenas faz parte do passeio; guias explicam detalhes (Bruno Rios/AT) Visitar a Lagoa Guatavita é, acima de tudo, um mergulho em um tempo que resiste. Um tempo em que as montanhas guardavam segredos, o ouro era sagrado e a natureza era respeitada como divina. Para quem busca mais do que paisagens bonitas — e aceita o desafio físico da subida —, a experiência é transformadora.