Estudos epidemiológicos têm apontado mudança marcante no perfil dos casos de câncer de orofaringe, além dos fatores tradicionais como tabagismo e consumo de álcool. O HPV (papilomavírus humano) passou a figurar como importante agente causal, especialmente em pessoas mais jovens, e representa um novo desafio à saúde pública. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com projeções do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a estimativa anual de novos casos de câncer de cabeça e pescoço é de 39.550. Ao somar os três últimos anos, contando com 2025, são esperados mais de 118.650 novos casos de câncer de cabeça e pescoço no País. Esses dados apontam para um cenário que exige atenção redobrada: pessoas mais jovens, com menos histórico de tabagismo ou uso abusivo de álcool, estão sendo diagnosticadas com tumores orofaríngeos em número cada vez maior, muitos deles associados à infecção por HPV. “O HPV é conhecido por sua relação com diversos tipos de câncer. No entanto, o vírus de orofaringe está aumentando entre os jovens pelo sexo desprotegido. Estimativas apontam que entre 50% e 60% dos tumores de orofaringe já estariam associados ao HPV, que tem maior sensibilidade às terapias quando comparados aos casos desencadeados por tabagismo ou álcool”, alerta o médico Rogério Dedivitis, cirurgião de cabeça e pescoço. Na análise nacional de tumores de cabeça e pescoço realizada pelo Inca, verificou-se que 86,6 % dos casos de orofaringe são diagnosticados em estágios avançados (III ou IV), o que compromete significativamente as chances de cura e torna mais urgente o diagnóstico precoce. O médico Rogério Dedivitis frisa ainda que o HPV mudou o cenário no câncer de orofaringe. “Estamos vendo cada vez mais pacientes jovens, sem os fatores de risco clássicos, apresentarem tumores nessa região. Isso exige que a comunidade médica e a população em geral encarem a vacinação não como algo opcional, mas como uma linha de defesa essencial”. “Além disso, é importante reforçar que muitos dos casos que chegam já em estágio avançado poderiam ter sido identificados precocemente, com melhor prognóstico, se houvesse maior conscientização sobre sintomas iniciais de orofaringe (veja detalhes ao lado)”. A vacinação contra HPV é uma das estratégias mais eficazes para prevenir infecções persistentes pelos tipos de alto risco, como os HPV 16 e 18, subtipos fortemente implicados nos casos de orofaringe. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações oferece a vacina gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Até dezembro de 2025, adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não receberam a vacina, podem se vacinar gratuitamente em campanhas de resgate. Uma medida que, com ampla cobertura, pode reduzir ao longo das próximas décadas a incidência desses cânceres. Além da vacina, o uso de preservativo no sexo oral e na prática sexual em geral, embora não previna completamente a transmissão do HPV devido ao contato com mucosas não cobertas pelo látex, pode reduzir substancialmente a chance de infecção. Com abordagem integrada, unindo vacinação, educação, vigilância e diagnóstico precoce, é possível reverter a tendência de aumento dos casos de câncer de orofaringe em jovens e resgatar a esperança de cura para muitos. Sintomas iniciais do câncer de orofaringe * Dor de garganta persistente, que não melhora com o tempo * Sensação de algo preso na garganta ou incômodo ao engolir * Dificuldade ou dor ao engolir (disfagia) * Dor de ouvido (otalgia) unilateral, sem causa aparente, especialmente no mesmo lado do tumor * Tumefação ou nódulo no pescoço (linfadenopatia cervical) * Alterações na voz (rouquidão ou voz “embolada”) * Manchas brancas ou vermelhas na boca, garganta ou amígdalas que não desaparecem * Ulcerações ou lesões que não cicatrizam na boca ou na orofaringe * Perda de peso inexplicada, sem razão aparente * Fadiga ou cansaço inexplicável * Dificuldade de movimentar a língua ou a mandíbula (ou sensação de rigidez) * Tosse persistente ou presença de sangue na expectoração (em casos menos comuns) *Cláudia Duarte é jornalista especialista em Saúde.