O médico Daniel Fortes, cirurgião do aparelho digestivo, alerta que a doença tende a aumentar com o tempo (Adobe Stock) Um pequeno abaulamento na barriga ou na virilha que aparece ao fazer força, tossir ou ficar em pé pode ser o primeiro sinal de uma hérnia. Embora muitas pessoas convivam com o problema sem dor, o médico Daniel Fortes, cirurgião do aparelho digestivo, alerta que a doença tende a aumentar com o tempo e, em alguns casos, pode evoluir para complicações que exigem atendimento de urgência. A seguir, o especialista fala sobre os fatores de risco e explica como os avanços da laparoscopia e da robótica ampliaram as opções de tratamento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que é exatamente uma hérnia e por que ela aparece? Hérnia é uma falha na parede muscular do abdômen, que permite a saída de gordura ou de alças intestinais, formando um abaulamento. Pode surgir em áreas naturalmente mais frágeis, por cicatrização deficiente após cirurgia ou por aumento repetido da pressão dentro do abdômen com tosse crônica, esforço para evacuar ou levantamento de peso. Quais são os tipos mais comuns de hérnia? As mais frequentes são as inguinais (na virilha), as umbilicais (no umbigo), as epigástricas, na linha média, e as incisionais, em cicatrizes de cirurgias prévias. Nos meus atendimentos, as inguinais e umbilicais são as campeãs. Nos pacientes que já operaram o abdômen, a incisional é bastante comum. É possível prevenir? Nem sempre, já que há um componente individual do tecido. Mas é possível reduzir o risco parando de fumar, tratando a tosse e a constipação, mantendo o peso sob controle e, quando houver cirurgia abdominal, seguindo técnicas adequadas de fechamento e um pós-operatório com mobilização e nutrição bem orientadas. Quais são os primeiros sinais de que uma pessoa pode estar com uma hérnia? O sinal clássico é um caroço que aumenta ao tossir, fazer força ou ficar em pé e diminui ao deitar. Pode vir com sensação de peso, queimação ou desconforto local. Dor súbita forte, náuseas, vômitos e pele avermelhada sobre o abaulamento sugerem encarceramento ou estrangulamento e exigem atendimento imediato. É possível ter uma hérnia sem sentir dor? Sim. Muitas começam sem dor e só incomodam no fim do dia ou ao fazer esforço. A ausência de dor não elimina o risco de aumento de tamanho ou de complicações. Como é feito o diagnóstico? Na maioria dos casos, pelo exame físico, com o paciente em pé e deitado. Ultrassom dinâmico ajuda quando a dúvida persiste. Já a tomografia é útil para mapear hérnias ventrais ou incisionais maiores e planejar a cirurgia. Quem tem maior risco de desenvolver uma hérnia? Homens têm mais hérnia inguinal. Mulheres têm mais risco de hérnia femoral. Obesidade, tabagismo, idade avançada, cirurgias abdominais prévias, doenças do colágeno, cirrose com ascite e diabetes mal controlado aumentam o risco. Na gestação, é mais comum a hérnia umbilical. Toda hérnia precisa ser operada? Em adultos, na maioria dos casos, recomendamos correção eletiva porque a tendência é aumentar e, eventualmente, complicar. Em hérnias pequenas, assintomáticas e redutíveis em homens, pode-se observar com reavaliação periódica. Em mulheres com sintomas na virilha, a indicação cirúrgica costuma ser mais precoce pelo maior risco de hérnia femoral. Em crianças, a inguinal é cirúrgica. Já a umbilical pode fechar espontaneamente até os quatro ou cinco anos. Como evoluíram as cirurgias de hérnia nos últimos anos? Saímos dos reparos com tensão (usando os próprios tecidos do corpo) para reconstruções com tela, que reduziram a recidiva e a dor. A videolaparoscopia ampliou as indicações com incisões menores, menos dor e retorno mais rápido à rotina. A robótica, disponível em centros habilitados, trouxe visão tridimensional estável, instrumentos articulados e maior precisão para suturas e reconstruções teciduais finas (preservando ao máximo os tecidos naturais), o que favorece reparos mais anatômicos em alguns casos. Quais são as diferenças entre cirurgia aberta, laparoscópica e robótica? A cirurgia aberta é feita com incisão sobre a hérnia, tem ampla aplicabilidade e é excelente para hérnias umbilicais pequenas e algumas situações de hérnias inguinais, inclusive sob anestesia local com sedação. A laparoscópica utiliza pequenas incisões, é muito indicada nas inguinais bilaterais ou recidivadas e em diversas ventrais (na parede anterior do abdômen), oferecendo menos dor no curto prazo e retorno mais rápido às atividades. A cirurgia robótica é uma evolução da via minimamente invasiva. Mantém as incisões pequenas e acrescenta visão 3D de alta definição, além de pinças articuladas, permitindo dissecção delicada, fechamento preciso e melhor colocação de telas. O uso de tela é sempre necessário? Ela é segura? Em adultos, a tela é recomendada na maioria dos reparos porque reforça a parede e reduz a chance de recidiva. Pode ser dispensada em defeitos umbilicais muito pequenos e em crianças. Quando bem indicada, posicionada em plano adequado e com técnica correta, é segura. Quais os cuidados pós-operatórios? Incentivamos caminhar cedo, controlar a dor com a medicação prescrita, manter hidratação e fibras para evitar esforço evacuatório e cuidar do curativo simples. Atividades leves retornam em poucos dias. O trabalho em escritório pode voltar geralmente entre três e sete dias nas vias minimamente invasivas e em até 14 dias na aberta simples. Esforço físico e carga voltam de forma progressiva após quatro a seis semanas, conforme liberação. Sinais de alerta, como febre, vômitos, dor que piora, vermelhidão intensa, secreção purulenta ou inchaço que não reduz, pedem reavaliação. Resumo O cirurgião do aparelho digestivo Daniel Fortes explica os fatores de risco, quando a cirurgia é indicada e como os avanços da laparoscopia e da robótica ampliaram as opções de tratamento.