(Rudy Huhold/Globo/Divulgação) “Eu sei que mãe não é minha melhor versão. Claro que eu gosto de vocês como pessoa. Amo você. Amo a sua irmã. Mas ser mãe exige muita submissão, muita abnegação. É até um pouco humilhante... Eu não nasci para ser mãe, Afonso. Talvez eu até tenha nascido para ser pai... Um pai ausente, como quase todos. Um exemplo de sucesso, provedor, com certeza. E vocês iam me amar se eu fosse pai…” Essa fala da personagem Odete Roitman, interpretada pela atriz Débora Bloch, deu o tom de uma cena emocionante na novela Vale Tudo, da TV Globo. No hospital depois de passar mal, ela conversava com o filho, que pediu desculpas por pegar pesado nas palavras contra a mãe. Pesadas até para uma mãe pintada como vilã. Mas cá entre nós, será mesmo que a Odete Roitman versão 2025 é a vilã da história? Ou estaria ela representando, pelo menos em parte, uma identidade ainda negada ao feminino que incomoda? Custo a crer que ao assistir essa cena alguma mulher deste Brasil, mãe ou não, não tenha ficado do lado dela. Não tenha pensado: Odete, eu te entendo. A empresária bilionária fictícia, à frente de uma companhia aérea, não é uma santa. E quem é? Essa é uma das sacadas de Vale Tudo. Nenhum personagem é ilibado. Nem a Raquel, que de tão querer ser correta é rígida a ponto de desconfiar da palavra de quem a ama de verdade — o Ivan, que não roubou os dólares, roubados, sim, pela filha Maria de Fátima. O que também é rigidez de caráter. Todo mundo lá avisando que a moça é da tramoia. Mas não. Raquel enxerga a cria com óculos cor de rosa e julga quem avisa que Fátima só apronta. Voltando à Odete, marcante, chique, rainha do sincericídio, que se coloca em primeiro lugar e impõe limites, representa a mulher que não se contenta em ficar na sombra de ninguém. Aos 60 anos, é sexualmente ativa e deixa evidente o quanto gosta do paranauê. Já teve até novinho se estapeando para ficar com ela. É preciso celebrar a mulher madura no horário nobre exigindo seu direito ao prazer e ao orgasmo. Ela sofre com o alcoolismo da filha, mas não passa a mão na cabeça. Uma filha que volta e meia tem comportamento adolescente, larga o próprio trabalho (a inauguração da exposição de quadros) porque teve um chilique ao ver o boy que ela gosta com namorada. Com razão, e trabalhando muito para manter um império, espera que o filho não vá para a praia no meio da semana. Nada contra quem vai, gente! Mas fica tudo nas costas dela? Um filho que, enquanto não decide o que fazer da vida, tem a agenda livre dia sim e outro também e cobra da namorada, que tem que ralar para viver, que ela trabalha muito e não tem tempo para a relação. Um chato desocupado versus uma moça de talento que tem boleto para pagar. Odete tá errada, gente? Nem tanto, não é mesmo? É importante e oportuno que essa mulher seja representada em um dos meios mais capazes de conscientizar as pessoas. Torço bastante o nariz para os intelectuais críticos das novelas, que as consideram um tipo de produto de massa alienado. É por meio da dramaturgia que muitos preconceitos e tabus são colocados abaixo. A própria versão atual de Vale Tudo chamou a atenção para pais que não pagam pensão aos filhos. A partir da cena em que a diarista Lucimar decide, depois de oito anos, pedir pensão alimentícia para o filho, fruto de um relacionamento com o porteiro Vasco, a procura pelo aplicativo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que trata do assunto, bateu recorde, com crescimento de 300%. O que Odete diria sobre os críticos das novelas? “Meu bem, isso é coisa de intelectual tupiniquim”. Já torço para que mudem o final e ela não seja assassinada, saia plena, com champanhe na mão, embarcando no jatinho para Paris. P.S.: A canção tema de Vale Tudo, Brasil, escrita por Nilo Romero, George Israel e Cazuza, marcante na voz de Gal Costa, é uma das letras mais geniais da música brasileira. Um retrato do País nos anos 80 e, em tantos aspectos, ainda semelhante a hoje. Vale ouvir prestando atenção.