Especialistas consideram que o mundo enfrenta uma epidemia de sobrepeso e obesidade (AdobeStock) Mais da metade da população adulta mundial viverá com sobrepeso e obesidade até 2035 se não houver uma ação imediata. O alerta é da World Obesity Federation (WOF), organização sem fins lucrativos que busca impulsionar esforços globais para reduzir, prevenir e tratar essa doença. A preocupação não é infundada, afinal, a obesidade está associada a maior risco de desfechos negativos em saúde, inclusive vários tipos de cânceres, e a reduções na expectativa de vida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Especialistas consideram que o mundo enfrenta uma epidemia de sobrepeso e obesidade. “Nenhuma área está imune às consequências da obesidade e os mais pobres são os que mais sofrem, em idades cada vez mais jovens”, diz a WOF, no World Obesity Atlas 2024. Estudo conduzido pela NCD Risk Factor Collaboration, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mostrou que mais de 1 bilhão de pessoas convivem com obesidade no planeta. Na população adulta, a taxa de obesidade mais do que dobrou entre mulheres e quase triplicou entre os homens entre 1990 e 2022. De acordo com a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2021, a prevalência de excesso de peso (sobrepeso) na população brasileira é de 57,2% e a de obesidade, 22,4%. Com base nas tendências dos dados de 2000 a 2016, e assumindo que nada mude em termos de intervenção, a WOF considera que a taxa de adultos com sobrepeso e obesidade passará de 42% em 2020 para 54% em 2035. Quase 8 em cada 10 (79%) deles viverão em países de baixa e média renda. Não é ‘falta de vontade’, é doença Nos últimos anos, a comunicação em saúde tem reforçado junto à população que a obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial. Em outras palavras, é uma condição que não tem necessariamente uma cura (mas pode e deve ser tratada, o que garante qualidade de vida ao paciente), que progride ao longo do tempo, o que significa que o tratamento precisa começar cedo para evitar o avanço de sintomas e complicações, e pode ter múltiplas causas que interagem entre si. O endocrinologista Bruno Geloneze também destaca que a obesidade tem aspectos neuroquímicos. “Centros reguladores de fome, saciedade e gasto energético no cérebro, mais precisamente no hipotálamo, estão alterados. Isso não tem nada a ver com a vontade da pessoa. Não é falta de caráter ou desleixo.” A nutricionista Desire Coelho frisa que não se trata apenas de fatores comportamentais, como comer menos. “A obesidade envolve fatores ambientais, psicológicos, emocionais e, sobretudo, questões genéticas e fisiológicas. O corpo é uma máquina dinâmica. A todo momento está se regulando e contrarregulando, para tentar inclusive evitar o processo de emagrecimento.” O estigma, que transfere culpa e responsabilidade ao paciente, além de incorreto e injusto, prejudica a busca e sucesso do tratamento, segundo os especialistas. Para diagnosticar, talvez a fórmula IMC (peso e altura) não seja suficiente. No novo consenso da Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, o IMC deixa de ser considerado isoladamente no diagnóstico e estadiamento da doença em adultos europeus e passa a dividir o protagonismo com aspectos como circunferência abdominal e impacto funcional e psicológico do peso. Não há expectativa de que o consenso europeu gere qualquer mudança instantânea na forma como os profissionais brasileiros diagnosticam e tratam a obesidade. Há, contudo, a esperança de que ele possa inspirar condutas futuras e, principalmente, que ajude a reforçar o movimento já abraçado por especialistas brasileiros de minimizar a importância do IMC e individualizar as metas de tratamento para a doença. Desire destaca que olhar apenas para a relação entre estatura e peso corporal pode deixar escapar aspectos tão ou mais importantes, como onde a gordura está localizada e a quantidade de massa muscular. “As circunferências abdominais, do quadril e do pescoço indicam se a gordura está mais centrípeta, no centro do corpo, mais visceral, que é o grande problema. Às vezes, pessoas com peso ‘normal’ e visualmente não gordas têm uma saúde muito pior do que pessoas que têm obesidade, mas estão metabolicamente saudáveis”. Trata-se de uma nova categoria: metabolicamente obeso com peso normal. Uma revisão publicada na Endocrine Reviews aponta que até 30% das pessoas com obesidade não apresentam anormalidades metabólicas evidentes - como colesterol ou glicemia elevados. É o que os médicos chamam de obesidade metabolicamente saudável. “Obesidade metabolicamente saudável não quer dizer que seja uma obesidade saudável. Essa é a grande confusão, porque a pessoa pode ter problemas psicológicos, ortopédicos ou mesmo o risco de desenvolver alguns problemas cardiovasculares no longo prazo, mesmo sem as alterações metabólicas. Essa situação metabolicamente saudável, ou seja, com os exames normais, tende a ser transitória, o próprio envelhecimento faz com que isso acabe”. Fator de risco para vários problemas A obesidade tem um impacto profundo na qualidade de vida do paciente, de acordo com a OMS. “Pode levar ao aumento do risco de diabetes tipo 2 e doenças cardíacas, pode afetar a saúde óssea e a reprodução, aumenta o risco de certos tipos de câncer”, diz Desire. Ela também ajuda a explicar a estagnação nos avanços mundiais contra o acidente vascular cerebral (AVC) e pode ser fator de risco para centenas de doenças, de acordo com a OMS e o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases, dos EUA. Entre elas, estão exacerbação de casos de enxaqueca, glaucoma, apneia obstrutiva do sono, arritmia (principalmente a fibrilação atrial), hipertensão, insuficiência cardíaca, infarto, refluxo gastroesofágico, esteatose hepática, incontinência urinária, risco de uma evolução não positiva da gravidez (maior chance de aborto e de malformação no bebê), trombose venosa, problemas de saúde mental, osteoartrite e cânceres.