<p data-end="396" data-start="140">Falar de trabalho no Brasil é complexo. Tem muita gente trabalhando muito para ganhar pouco. Tem muita gente trabalhando pouco para ganhar muito. Tem quem goste de disfarçar a exploração com discurso de independência para o que na verdade é precarização.</p> <p data-end="795" data-start="398">E quando foi que começamos a achar bonito perder direitos trabalhistas? Dizer que é coisa de encostado? Precisa ver aí quem está por trás dessa ideia – certamente alguém que tira bastante vantagem da mesma. Um corpo cansado não reage. Uma mente exausta não raciocina como deveria. A soma dos dois é sobre pessoas manipuláveis e condenadas a aceitar menos do que poderiam alcançar para viver bem.</p> <p data-end="1128" data-start="797">Apesar de tudo, o trabalho constitui parte importante da nossa identidade. Se há o privilégio de trabalhar com o que se gosta, então, é certa a sensação de saber qual o nosso papel no mundo. Enxergar sentido em exercer a profissão que escolhemos resulta em realização pessoal. Que resulta em motivação para se dedicar às tarefas.</p> <p data-end="1362" data-start="1130">Aqueles atingidos pelo trabalho feito com dedicação acabam inspirados e agradecidos. Levam para si e para as próprias atividades o desejo de replicar em suas vidas o que sentiram de bom através do trabalho que admiraram de alguém.</p> <p data-end="1582" data-start="1364">Eu sempre trabalhei muito. Continuo trabalhando muito. Mas aprendendo e reivindicando meu direito ao descanso. É a pausa que me permite render melhor quando o dever chama e construir beleza no produto final que crio.</p> <p data-end="1923" data-start="1584">O limite também veio claramente da minha resistência física desafiada pelo tempo: já não sou tão rápida, mas certamente sou mais estratégica. Não espere que eu responda sua mensagem com urgência na era do tudo em tempo real agora. Espere que eu responda e aja com qualidade dentro de parâmetros aceitáveis em que ninguém sai prejudicado.</p> <p data-end="2282" data-start="1925">Gosto demais do valor do meu trabalho. Aliás, trabalhos, no plural. Em agosto, tive a chance de conversar com Valter, Sônia e Neusa, meus leitores aqui na coluna. Eles me procuraram no estande da Concidadania, na primeira Feira Literária de Santos (Flis), depois que avisei em um texto anterior que participaria do evento. Foi uma surpresa muito especial.</p> <p data-end="2570" data-start="2284">Tive a chance de entender um pouquinho do que eles gostam sobre o que escrevo, além de, mesmo que brevemente, descobrir quem são. Ver meu trabalho mais criativo reconhecido como algo de valor que desperta curiosidade, aprendizado e reflexões nas pessoas me deixa feliz e me incentiva.</p> <p data-end="2923" data-start="2572">Sim! Porque ser escritora ainda soa como exótico. Ou complemento de outras atividades. Ou hobby vaidoso. Escrever é muito maior para mim. É o que dá base para eu ser capaz de realizar minhas atividades como professora e pesquisadora. É como melhor me expresso. É como me localizo enquanto ser humano. É como vejo todos os dias motivo para continuar.</p> <p data-end="3325" data-start="2925">P.S: todo trabalho é importante e cria um ciclo de possibilidades. Gosto, por exemplo, de lembrar minhas alunas e meus alunos que estão se formando que o diploma deles é um mérito particular, mas que envolve o trabalho do pessoal da limpeza, da cantina, da secretaria, da segurança… Entre outras coisas, estudaram porque havia uma estrutura de atuação de terceiros para que realizassem seus sonhos.</p> <p data-end="3398" data-start="3327">E sempre alcançará mais com o trabalho quem não esquece de onde veio.</p> <p data-end="3580" data-start="3400">P.S.2: em agosto completei quatro anos escrevendo neste espaço para vocês. Muito obrigada a quem me lê. Muito obrigada ao jornal e a meus editores que acreditam na minha escrita.</p>