(Reprodução/Instagram) Morreu uma jovem brasileira ao pé de um vulcão. Alguns choraram. Outros julgaram. Houve quem dissesse “pra quê subir tão alto?”, como se sonhar fosse privilégio dos cautelosos, como se a vida tivesse manual, como se fosse possível medir a coragem com a régua de uma tela. A notícia mal esfriou e já era ré no tribunal das redes: dedos apressados, certezas rasas, indignação ensaiada. Julgavam sem saber dos porquês, das dores e das superações que talvez a tenham levado até ali. Como se estivessem vivos de verdade, apenas por estarem vivos. A liberdade, hoje, virou suspeita. Qualquer passo fora do esperado vira espetáculo e o espetáculo exige julgamento. Mas, como disse Clarice Lispector, “liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Talvez essa jovem desejasse esse sem-nome. Talvez tenha subido montanhas reais para vencer as que moravam dentro dela. E ninguém, a não ser ela, conhecia o tamanho do silêncio que aquela paisagem preenchia. Drummond já dizia que “a vida necessita de pausas, de silêncios, de espaços entre uma palavra e outra”, mas não há mais espaço entre palavras quando se fala para multidões invisíveis. O silêncio hoje é logo confundido com fraqueza; a busca por si mesma, com exibicionismo. Não houve pausa nem luto. Houve julgamento. Nietzsche, incômodo como sempre, escreveu que “aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam ouvir a música”. Talvez ela dançasse na beira da cratera não por vaidade, mas porque ouvia uma canção que nós não escutamos. Talvez estivesse menos interessada em likes e mais em estar viva, de verdade. E há quem se arrisque por puro amor à vida, ainda que o risco custe tudo. Viver virou um equilíbrio frágil entre a vontade de ir e o medo do olhar alheio. E há quem prefira cair tentando tocar o céu a passar a vida inteira evitando a queda. Mas ninguém parece disposto a admitir isso. O fácil é chamar de imprudente o que a gente não tem coragem de fazer. Poucos dos que julgaram saberiam das noites em que só a ideia de um cume nevado dava sentido aos dias. Poucos conheceriam os limites que ela precisou atravessar só para estar de pé. E ninguém, além dela, sabia se aquele passo era fuga, entrega, ou libertação. Talvez tenha sido tudo isso junto. Ou só vida em estado puro, que nem sempre cabe nas palavras. E por mais que doa, há mortes que são menos sobre fim e mais sobre intensidade. Ela talvez tenha vivido em poucos anos o que muitos evitam sentir por décadas. Subir ao topo de um vulcão, encarar a instabilidade da natureza, talvez fosse sua forma de dizer “eu estou aqui”, num mundo que exige que a gente se esconda para ser aceito. Drummond, em um verso que quase sussurra, pergunta: “Você marcha, José. José, para onde?”. Talvez ela tenha marchado para onde queria. Ou para onde precisava. E isso, por si só, deveria ser digno de respeito. Que seu último passo sirva não de alerta contra o sonho, mas como um espelho: para que a gente aprenda a não medir a liberdade do outro com a nossa própria régua. Que a gente lembre, mesmo em meio ao ruído dos julgamentos fáceis, que coragem, às vezes, é apenas tentar existir do nosso próprio jeito, ainda que isso incomode os que nunca ousaram sair do chão. Que a vida, para alguns, é chama. E que há quem prefira arder brevemente a apagar-se aos poucos na sombra do medo alheio. *Escritor, professor universitário e jornalista