Imagem ilustrativa (Freepik) Há dias em que acordo com a sensação de que tudo está atrasado. O telefone toca antes do café, uma mensagem espera resposta, uma notícia pede atenção, uma reunião aparece na agenda e, antes de colocar os pés na rua, já existe uma fila de coisas exigindo passagem. Inventamos ferramentas para economizar tempo e, pouco depois, passamos a preencher cada minuto poupado com outra urgência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A inteligência artificial chegou carregando essa promessa. Escreve, pesquisa, organiza, calcula, traduz, resume e encontra caminhos. Pode devolver horas ao trabalho, aliviar tarefas, abrir espaço para o pensamento. E há uma pergunta que fica sobre a mesa, talvez mais incômoda que todas as outras: o que faremos com o tempo que ela promete nos devolver? Hartmut Rosa chama atenção para a aceleração social, esse movimento em que a vida passa a depender de ritmos cada vez mais rápidos, de produtividade, inovação e desempenho. A cena é conhecida. Uma tarefa que ocupava uma hora passa a consumir dez minutos e os cinquenta restantes desaparecem imediatamente sob outra tarefa, outra mensagem, outro compromisso. Talvez seja nesse ponto que precisemos conversar com a inteligência artificial sobre a nossa própria inteligência. A máquina pode encontrar uma informação em segundos, desconhece a memória de uma avó que passou uma tarde contando a mesma história. Pode produzir um texto, desconhece o silêncio que antecede uma palavra guardada durante anos. Pode organizar o mundo, desconhece o tempo necessário para alguém simplesmente estar diante de outro alguém. José Saramago escreveu: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Há frases que envelhecem bem porque continuam encontrando a nossa época. Talvez seja preciso rever a ideia de tempo perdido. Existem horas que não produzem números, relatórios ou resultados e, ainda assim, sustentam uma existência. Penso nisso quando imagino uma mesa de idosos em uma praça, um bar ou um café. O café permanece ali. A conversa se alonga. Alguém chega, alguém parte, uma história começa e outra retorna. O tempo passa pelo corpo das pessoas como passa pela comida, pela caminhada, pelo reconhecimento de quem está ao redor. O Brasil conhece bem essa sabedoria. Ela está nas cozinhas onde receitas circulam sem medidas, nas casas em que os mais velhos guardam histórias de família, nas comunidades que conhecem o tempo da chuva, da colheita e da pesca, nas festas que atravessam gerações, nos povos que aprenderam a escutar a terra. Ailton Krenak chama isso de futuro ancestral. A expressão parece caber neste instante em que corremos para inventar o amanhã enquanto esquecemos aquilo que chegou até nós pela memória. Manoel de Barros encontrou poesia numa pedra, num passarinho, numa palavra esquecida. Há conhecimentos que só existem porque alguém teve tempo de viver o suficiente para contá-los. Talvez seja desse país profundo que devemos buscar uma medida para a tecnologia. Se uma máquina prepara um relatório em dez minutos, que os cinquenta seguintes encontrem uma conversa. Se uma ferramenta organiza uma pesquisa em segundos, que sobre algum tempo para ler sem olhar o relógio. Se a tecnologia reduz uma tarefa, talvez possamos reduzir também a quantidade de tarefas que empilhamos sobre a vida. Talvez possamos usar as horas devolvidas para envelhecer, conversar, lembrar. Para sentar diante de uma mesa e deixar o café esfriar enquanto alguém conta uma história que já conhecemos. Talvez esse seja o tempo que procurávamos.