Outro dia me peguei pensando sobre o tempo das coisas. Esse movimento da vida o qual não temos controle. Esses instantes, um depois do outro, que por mais que possamos ter planejado, nunca sai como esperado. Ele, o tempo das coisas, sempre intervém. Quando adolescente, sonhava muito com as realizações que alcançaria e quando exatamente as conquistaria. O estudo, o trabalho dos sonhos, o amor da vida, as viagens inesquecíveis. Mas o tempo das coisas foi outro. Ele tomou as rédeas dos acontecimentos. Alguns chamam isso de destino, mas não gosto de pensar que tudo está determinado. Prefiro acreditar que ele, o tempo, é que sabe o momento certo. O tempo das coisas é significativo não só nas nossas histórias. A natureza também é determinada pelo tempo. O tempo da germinação é só dele e leva o necessário desde o surgimento do primeiro broto ao desabrochar das flores, muitas na primavera, quando a natureza desperta do frio. O corpo é outro instrumento sinalizador de que o tempo, ah!, o tempo, só ele determina quando os pelos surgem, os seios empinam e declinam, a cicatriz ganha casca. Quando os cabelos caem, se renovam ou se tintam de branco. Sem Cesária agendada, o bebê só nasce na hora dele. Às vezes me revolto. Pouco quero saber dessa força maior. Desejo ser dona do meu tempo, determinar se será agora, daqui a pouco ou depois. Aquela promoção tão esperada é sempre para hoje, o ganho de músculo é para a semana que começo na academia. Namoro? Já quero sério logo de início, para que esperar? O feijão? Que bom que existe a panela de pressão; esperar mais de 20 minutos seria enlouquecedor, pensa que tenho tempo para tudo? Dane-se se o tempo é rei, mesmo plebe quero alcançar a riqueza de ser dona de mim. Sem intervenções, por favor! Esta semana é perfeita para meu cabelo crescer cinco centímetros e me deixar linda para o aniversário da Estela. Plim! Amanhã, vou pedir meu crush em namoro, mesmo o tendo visto só duas vezes, tenho certeza de que é o momento. Plim! Este ano vou ter meu primeiro filho. Plim! Minha artrite reumatoide vai regredir a partir de amanhã. Plim! Que pena. Não funciona dessa forma. Sem mágica, nem regras. É simplesmente assim. O tempo tem o tempo dele. Meu primeiro namorado foi depois dos 25 anos, e olha que sonhava com isso desde os 15. Com carro na garagem, levou cinco anos até que eu conseguisse tirar carta de motorista. Quase 40 anos para que eu comprasse meu único imóvel. Uma vida toda para entender minha mãe. Hoje, olho para trás e penso nesse tempo todo. Com a clareza que só a maturidade traz, entendo melhor sobre esses ponteiros do relógio que correm mesmo à nossa revelia. Antes dos 40, nunca estaria pronta para compreender minha mãe. Só aprendi a dirigir quando me mudei para São Paulo. O filho nunca veio porque cuidar de uma mãe a vida toda já era maternidade suficiente. Tudo bem, vai, o primeiro namoro poderia ter acontecido antes, mas quem tem pai severo entende meu lado. Como o feijão, provei na hora certa, quando o grão já estava macio e temperado, pronto para consumo. Então, encerro essa crônica pensando sobre o que Caetano Veloso pensou quando escreveu a música Oração ao Tempo. O que será que o tempo, tão poderoso, nem ao filho de Dona Canô atendeu. Tempo, tempo, tempo, tempo... *Adriana Pimenta é jornalista, escritora e professora de escrita criativa.