Eu olhava pela janela do carro a paisagem banhada de sol e céu azul de outono daquela estrada que percorri muitas e muitas vezes entre uns dez e quinze anos atrás. Mas agora é um sábado de 2026, um presente que naquele passado jamais imaginei que seria um futuro. Volto ao mesmo lugar cerca de uma década depois. É outro cenário, outro contexto, rodeada de outras pessoas tão diferentes daquelas com as quais convivi. Tão mais alinhadas com que sou. Ou talvez com que me tornei no decorrer desse tempo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Hoje me percebo como quem eu realmente sempre quis ser. Há 15 anos, me adaptava porque acreditava que era o único caminho para ser aceita e construir, pelo menos em parte, as histórias que sonhava. O preço era alto. Em geral, diminuir para caber, para não causar desconforto, para não entrar em conflito, para manter o que para tanta gente é entendido como sorte grande. Era “aceita”. Mas não era sobre mim. Até que os silêncios e os incômodos tomaram grandes proporções.Se transformaram em disputas e gritaria. Acabou da pior forma. Eu precisava sair do que não me expandia. Magoei e fui magoada. E por mais que a autenticidade tenha também preço, esse sim é um valor que não se deve temer pagar. Enquanto passo por locais em que já estive, meus olhos vão admirando outros que me são novos. Tudo se renova. Quando estamos imersos na dor e na dificuldade, parece impossível acreditar que um dia existirão encontros e possibilidades que nos tirarão do momento sombrio que então parece eterno. Elas sempre voltam - as fases de paz, calmaria, alegria fácil e genuína. De planos e sonhos. Pessoas que se encaixam na nossa vida com todo o sentido que é possível fazer se tornam horizonte. Dessa vez, porém, sem esquecer da minha inteireza como algo sagrado. Não negociável. Sempre falamos de ressignificar situações e experiências. Os lugares em que tais situações e experiências aconteceram também precisam desse trabalho. Oferecer a si mesmo uma inédita interpretação dos espaços físicos de traumas e tristezas é tão importante quanto mudar a perspectiva dos sentimentos vividos para transformá-los em aprendizado. Se é simples desde o começo? Certamente, não. Pense em países que tiveram que dar sentidos diferentes a territórios arrasados por guerras, ditaduras e ataques para suas sociedades seguirem em frente. São criados memoriais, praças e homenagens. O passado não se apaga. Reverenciá-lo e transmutá-lo como parte do que nos constitui é a saída. Quem sabe perdoá-lo. Para mim, o primeiro dia de voltar a este lugar foi invadido por lembranças que se misturavam, entre boas e ruins. Foi confuso. Outros dias vieram e com eles as pessoas singulares deste agora. Tudo junto me permitiu ressignificar as antigas circunstâncias. Há umas duas semanas recebi um elogio bonito: você é leve. Nem sempre. Atualmente, sim. Espero que cada vez mais e constantemente. Porque é muito feliz e aconchegante o equilíbrio entre inteireza e leveza. A você que me lê, espero que também alcance a harmonia entre aprender com o que já foi e onde esteve com o que pode ser e onde pode estar. P.S.: Esses dias ouvi Yellow, do Coldplay. Acho que o refrão cabe para arrematar nosso texto de hoje: olhe para as estrelas, olhe como elas brilham para você e para todas as coisas que você faz. Gosto muito da versão instrumental do Brooklyn Duo. Você encontra nos streamings.