Margot Robbie e Jacob Elordi em foto inspirada em ...E o Vento Levou (Warner Bros. Pictures/Divulgação) O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell, poderia ter sido o ...E o Vento Levou do século 21, como sugere o pôster oficial do filme, ou um novo Titanic, capaz de arrebatar multidões, conforme ambicionava a própria cineasta. No entanto, a produção não alcança nem a grandiosidade de um épico clássico nem a força de um blockbuster romântico. O roteiro adaptado por Emerald, repleto de novidades que deslocam o eixo do enredo original, resulta em uma trama superficial, com forte apelo erótico, baixa densidade dramática e trilha sonora pop destoante. A impressão é a de que a diretora não definiu com clareza o que pretendia manifestar ao revisitar um dos maiores clássicos da literatura inglesa. A primeira contradição surge já nos créditos iniciais, quando o longa-metragem é apresentado como baseado no romance de Emily Brontë. Não se trata de uma adaptação, mas de uma história nova construída a partir de fragmentos da obra original. O filme diverge em aspectos estruturais: exclusão de personagens, troca de parentescos, alterações na cronologia, inserção de eventos inéditos e erotização do casal de protagonistas. No romance, Catherine Earnshaw e Heathcliff vivem um amor obsessivo e destrutivo que arruína a vida de todos ao redor. Adotado ainda criança pelo pai de Cathy, Heathcliff passa a ser humilhado por Hindley, irmão de Cathy, após a morte do patriarca. Dividida entre a paixão arrebatadora e a ambição social, Cathy escolhe se casar com Edgar Linton, dono de Thrushcross Grange. Heathcliff parte e retorna três anos depois, rico e consumido pela vingança, instaurando um ciclo de crueldade que se estende à geração seguinte. Narrada pela governanta Nelly ao inquilino de Heathcliff, Lockwood, a saga familiar é marcada por ressentimento e consequências devastadoras. No filme, Cathy e Heathcliff se entregam à paixão em tórridas cenas de sexo e desejo, mas sem a emoção que sustenta o romance. Margot Robbie e Jacob Elordi não transmitem densidade, são superficiais, porque o roteiro não ajuda. Na literatura, o amor dos dois transcende a vida e a morte — são como a alma um do outro —, mesmo sem nunca terem se relacionado sexualmente. No filme, Heathcliff é menos perverso, menos complexo e trata Cathy com ternura. Emerald transfere sua masculinidade tóxica para Edgar, que, no livro, é retratado como um cavalheiro. A manobra soa débil, como tentativa de moldar Heathcliff ao arquétipo do galã romântico. Personagens como Lockwood, Hindley e os filhos de Cathy, Heathcliff e Hindley, respectivamente, Cathy, Linton e Hareton, são excluídos, comprometendo a dimensão trágica e circular da história. Destoa também o figurino de Cathy, que mescla trajes do século 19 com alta-costura moderna e óculos de lentes vermelhas, usados em ambiente rural e bucólico. A proposta estética não convence como representação de ostentação. As cores vivas, sobretudo o vermelho, neutralizam a atmosfera gótica e sombria idealizada por Brontë, diluindo a essência da obra. A fotografia e a direção de arte são visualmente deslumbrantes, mas as inconsistências enfraquecem a trama, que exclui ainda a aparição do espírito errante de Cathy, que transita entre o sobrenatural e a obsessão de Heathcliff até a sua morte. Outras duas adaptações mais conhecidas de O Morro dos Ventos Uivantes para o cinema são: o clássico de 1939, de William Wyler, com Laurence Olivier e Merle Oberon, que exclui a segunda geração, e o filme de 1992, de Peter Kosminsky, com Ralph Fiennes e Juliette Binoche — mais fiel à obra original, abrangendo toda a narrativa e acrescentando Emily Brontë (Sinéad O’Connor) como narradora. O romance inspirou outras inúmeras adaptações para cinema e televisão.