Débora Bloch interpreta Odete Roitman em Vale Tudo, da TV Globo (Rudy Huhold/Globo/Divulgação) É noite de assassinato. Estamos na casa de Ligia; eu e um grupo de mulheres 45+ reunidas para assistir ao capítulo tão especial de um clássico da teledramaturgia brasileira, a novela Vale Tudo, e o assassinato da vilã das vilãs, Odete Roitman. “Eu acho que foi a Maria de Fátima”, aposta a Estela. “Que nada! Foi a Tia Celina”, retruca a pequena Lulu, “Pra mim foi o Cesar”, responde Carol, que nunca tinha assistido à novela. Como se fosse hoje, ainda me lembro da morte de Odete na primeira versão. A Leila (interpretada por Cássia Kis) entrou no apartamento onde estava seu marido e quando ouviu uma mulher saindo do banheiro, mesmo sem vê-la, disparou cega de ciúmes. Assistia com meus pais e avós. Quando o tiro feriu Odete, na época interpretada pela atriz Beatriz Segall, todos na sala prenderam o ar, mantendo-o suspenso por alguns segundos. Assim como nós, o País parou naquela noite. Agora faltam poucos dias para o capítulo final do remake que, desde o início, tem gerado sentimentos ambíguos, a começar pelas comparações inevitáveis. Há quem prefira o charme elegante de Carlos Alberto Riccelli ao galã Cauã Raymond, que interpreta um Cesar ‘quarentão’, com pouco cérebro e muito músculo. Ou quem veja na Heleninha de Paolla Oliveira um exagero de trejeitos e na Bela Campos uma atriz inexperiente para uma personagem tão perversa. Tia Celina ganhou novos ares, com uma personagem contemporânea, que se veste de forma autêntica e até namora. O casal Ivan e Raquel teve que dividir espaço na trama com Aldeíde, Consuelo e Olavinho, personagens que ganharam corpo e torcida dos espectadores. Não dá para esquecer os erros de continuidade (a ausência de barriga nas grávidas Fátima e Solange) e as incoerências do roteiro, como o assassinato de Ana Clara. Uma opinião, porém, é unânime: o fascínio por Odete Roitman. Nossa vilã-mor acumula uma longa lista de maldades: 1) a magnata se casa por interesse, 2) deixa seus três filhos aos cuidados da irmã, 3) ignora e critica a filha alcoolista, 4) mantem o filho favorito em cárcere aos cuidados de uma simples senhora enquanto todos pensam que está morto após um acidente de carro, 5) manipula a família para que possa aproveitar a vida ao lado de jovens bonitões em iates pela Europa, 6) se casa com o amante da ex-mulher do filho, 7) deixa de salvar o filho Afonso da leucemia, mesmo sabendo que o irmão em cárcere é compatível para o transplante de medula, 8) ainda mata quem se intromete em seu caminho. O curioso é que, apesar de tudo isso, é difícil odiar Odete Roitman nessa versão, mesmo com um comportamento tão monstruoso e uma personalidade “dessa monta”. Não queríamos que ela tivesse morrido, essa é a realidade! Essa edição trouxe uma Odete Roitman claramente diferente, não apenas pela juventude da personagem 60+, mas, principalmente, pela postura de uma mulher que ocupou espaço em um mundo onde o homem sempre vence. Achamos essa Odete Roitman intrigante porque ela provou que a mulher, sobretudo a 60+, pode ter relacionamentos com homens mais jovens, jogar o jogo do poder de igual para igual e confessar que ser mãe nunca foi sua melhor versão. “Talvez eu tenha nascido para ser pai, um pai ausente como quase todos, um exemplo de sucesso, um provedor. Com certeza, vocês me amariam se eu fosse pai”, disse na cena memorável com o filho Afonso, em que escancara as desigualdades dos papéis de pai e mãe em qualquer família brasileira. Em ato feminista, concede uma coletiva de imprensa e diz: “A sociedade pode não estar preparada para mulheres que comandam o mundo, mas o patriarcado vai ter que se acostumar”. São personagens como essa que a gente tem certeza de que a vida presta. Vida longa às mulheres livres, mesmo que incomodem muita gente. Frases icônicas de Odete Roitman. Qual sua favorita? “Nós não temos lastro, nem intimidade, para uma agressão dessa monta.” “O amor é um retrocesso terrível. O problema é que não existe nada melhor.” “Não tem nada mais primitivo do que demonstração de afeto em público.” “A vida é chata, meu bem. Fora um outro momentinho que a gente consegue subjugar a realidade e a imbecilidade das pessoas, a vida é basicamente chata.” *Adriana Pimenta é jornalista, escritora e professora de escrita criativa.