A a crescente dependência da tecnologia exige uma reflexão sobre os efeitos desse processo (Reprodução/Pixabay) Em tempos de avanço imenso da tecnologia, com o uso incessante de smartphones, a formação do imaginário das crianças se vê desafiada. Vivemos numa época em que o contato com o mundo digital se tornou parte intrínseca da infância, com redes sociais e inteligência artificial moldando a maneira como as crianças percebem o mundo ao seu redor. Contudo, a crescente dependência da tecnologia exige uma reflexão sobre os efeitos desse processo e a necessidade de reconectá-las com formas de estímulo que favoreçam o desenvolvimento de uma imaginação mais rica e plural. A imaginação infantil, fundamental para a construção do pensamento crítico, se desenvolve por meio do contato com histórias, seja por meio de livros, quadrinhos, filmes ou mesmo desenhos animados. O filósofo Ailton Krenak, em suas reflexões sobre a modernidade, nos alerta para a erosão da vida provocada por uma dependência exacerbada das novas tecnologias. Ele aponta que estamos “sendo consumidos por elas” e, consequentemente, perdendo a capacidade de nos conectar com nossa própria essência e com o mundo natural. A criança, em especial, é um ser que necessita de estímulos que a ajudem a explorar e expandir sua imaginação, e não apenas consumir informações instantâneas e superficiais. É preciso lembrar que a imaginação não se desenvolve apenas por meio de conteúdos prontos e rápidos oferecidos pela internet, mas sim por vivências e trocas de experiências. Jonathan Haidt, em suas pesquisas sobre a Grande Reconfiguração da Infância, chama a atenção para a transição de uma infância baseada no brincar para uma infância conectada, moldada pelo celular. Segundo Haidt, mesmo quando a Geração Z não está ativamente usando seu celular, parte significativa de sua atenção se divide entre o mundo físico e o metaverso social, onde as interações digitais substituem a comunicação verdadeira, direta e com troca de afetos. Se, por um lado, a internet oferece uma quantidade quase infinita de informações, por outro, também facilita o consumo passivo, onde as crianças muitas vezes interagem de forma fragmentada, sem a profundidade que a leitura de um livro ou a construção de um jogo de imaginação requerem. O contraste entre uma infância alimentada apenas por estímulos digitais e uma infância vivida através do brincar, das histórias compartilhadas e do convívio social, é uma discussão que precisa ser levada a sério. Afinal, como Ailton Krenak aponta, a lógica do capitalismo e da modernidade fez com que a experiência de vida se tornasse um consumo constante, e isso afeta diretamente a maneira como as crianças veem o mundo e as diferenças ao seu redor. A recente lei que proíbe o uso de celulares nas escolas de ensinos Fundamental e Médio pode dar espaço para as crianças interagirem com seus colegas de forma mais profunda, para que se permitam viver o momento presente e a experiência de aprender, sem as distrações das redes sociais. Não podemos permitir que as crianças cresçam apenas como consumidores de informações e ferramentas, mas como seres criativos, capazes de refletir e entender as diferenças que tornam o mundo mais rico e plural.