Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines e Rodrigo Santoro (Divulgação/Netflix) Escrito e dirigido por Daniel Rezende, O Filho de Mil Homens (2025) é uma adaptação do romance homônimo do escritor português Valter Hugo Mãe, publicado em 2011. É daqueles filmes que preenchem a alma da gente, que nos provoca a refletir sobre o nosso quinhão de humanidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com um visual deslumbrante e uma sensibilidade poética, o filme é narrado por Zezé Motta. A sua voz acalenta, conforta, comove e convida o espectador a assistir à próxima cena. Ela introduz a história de cada personagem como quem pega uma criança pela mão. Sutil, leve, acolhedora. O enredo se desenrola a partir da perspectiva de quem sofre, do condenado ao exílio eterno apenas por ser diferente. Assim são contadas as histórias de Crisóstomo, Camilo, Isaura, Antonino e Francisca, respectivamente, um pescador estranho, um órfão, uma mulher solteira que não é mais virgem, um homossexual e uma anã. É no olhar triste e sem esperança de cada um desses personagens que se percebe o dano emocional grave provocado pela violência verbal, o preconceito e a discriminação. E são deles os corações mais puros e acolhedores. Num chalé de madeira simples cuja vista é a paisagem paradisíaca de uma praia fluminense, há um boneco de pano sentado no sofá, tratado como um filho por Crisóstomo (Rodrigo Santoro), o pescador solitário que deseja ser pai. Aos 40 anos, ele decide aniquilar a sua dor mais profunda e distribui bilhetes à comunidade que o despreza: “Pai sem filho procura filho sem pai”. Então, Camilo (Miguel Martines), um garoto sem família, é entregue a ele por uma mulher que o encontrou sozinho. Assim, nasce uma relação familiar forjada no amor e no afeto. A história de Crisóstomo se conecta à de Isaura (Rebeca Jamir) e à de Antonino (Johnny Massaro). Sob o ponto de vista técnico, o longa-metragem é um primor na fotografia e nas locações belíssimas. É um deslumbramento que contrasta propositalmente com o povo maléfico da comunidade local. Ao mesmo tempo, ambienta a jornada de busca por identidade e pertencimento dos quatro personagens principais, Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino. A trama, costurada nas sutilezas, mostra que tudo está conectado. Tocante ainda é a história de Francisca (Juliana Caldas), relegada socialmente por ser anã. Ela mora em uma casa aconchegante, decorada com esmero e muitas flores, mas as mulheres a procuram por seus serviços e os homens para satisfazer as necessidades da carne. Ainda assim, Francisca é resiliente e nutre um faz de conta de que é amada e cuidada, apenas para seguir em frente. E ela tem um motivo, o filho que vai nascer. É a entrega dos atores e atrizes que torna O Filho de Mil Homens um filme único, necessário e contemplativo. O comprometimento em cada tomada é uma ode à obra tocante de Valter Hugo Mãe. É sinergia pura. Destaco, além dos protagonistas, as atuações de Grace Passô como Maria, Inez Viana como Matilde e Tuna Dwek como Doutora Carminda. Com um desfecho marcante, o filme expressa o significado máximo de que todos estamos conectados, de geração em geração. Feitos da mesma matéria e ainda assim, únicos, nem melhores, nem piores. O Filho de Mil Homens é profundo e deslumbrante. Assista! A produção está disponível na Netflix.