(Adobe Stock) O respeito e o cuidado com os animais mudou para melhor nos últimos anos. Ainda há a ignorância dos maus tratos, mas também o reconhecimento do quanto são preciosos em nossas vidas. Não só são companheirinhos especiais em casa como muitos se tornaram mascotes de locais públicos e empresas. Das últimas histórias que conheci, tem cachorro que virou ‘zelador’ de prédio de escritórios e tem cadelinha que se tornou xodó dos frentistas de posto de gasolina. Tem ‘delegato’, adotado pela polícia e gatinha fitness que acompanha a galera na contagem dos exercícios na academia. São conhecidos como animais comunitários. As pessoas de uma comunidade são responsáveis pelos cuidados e bem-estar dos bichinhos. Aqui no meu condomínio sempre teve gato que todo mundo cuidava um pouco. O David Bowie, um frajolão bonito, viveu pelos jardins e no estacionamento por uns dez anos. Moradores davam comida e água, conversavam com ele. Às vezes bebia água da piscina o danado! Mas ele era um chameguinho, olhava com calma os humanos, deitava perto para ouvir umas conversas. Só nunca deixou pegá-lo. Já velhinho e cansado de briga nos telhados, ano passado David não apareceu mais. A gente percebia que sua partida se aproximava. Ele é o pai do meu Ginger, que resgatei do estacionamento. A mãe é a Lilith (eu que dou o nome dos gatos), outra gatinha que já vive aqui há três anos. A primeira ninhada da Lilith foi atrás da quadra do prédio. Ela era bem novinha. Foi a primeira vez que nos vimos. E a primeira de muitas tentativas de resgatá-la. Mas ela sempre foi arisca e rápida, nunca foi do rolê que nem o David. Assim, se tornou nossa nova mascote comunitária. Ganhava água e comida de parte dos moradores. Até que um dia… Gritaria, insultos, ameaças. Tudo isso no grupo de WhatsApp do condomínio. Meia dúzia de vizinhos implicou com a gatinha. Dizem que alimentá-la cria foco de dengue e de baratas (mesmo que os potes sejam limpos e trocados todos os dias e o prédio seja desinsetizado). Dizem que ela arranha os carros do estacionamento (mesmo que ela desça pelo muro). Dizem que ela agora é a inimiga número um do condomínio (e que quem cuida é um bando de “louca dos gatos”). Nenhuma dessas pessoas quis saber a história de Lilith e todas as nossas tentativas de resgatá-la e castrá-la. Ninguém sabe que já pedimos ajuda para três ONGs que estão lotadas e sem condições de auxiliar. Não sabem que, no desespero, estávamos prestes a contratar um caçador de gatos (essa profissão existe) para pelo menos capturar e castrar a pequena. Mas aí a galera do contra bateu no peito para dizer que paga condomínio e que denunciaria quem cuida da Lilith. Muitos dos que cuidavam dela se sentiram intimidados. Desistiram de ajudar. A síndica conversou numa boa comigo e pediu para que eu também parasse de alimentá-la. Ela de fato fica numa situação difícil. Não pode deixar sair do controle. E sair do controle é o que parte das pessoas do grupo de WhatsApp mais quer. Ver o circo pegar fogo, ter a própria vontade feita, sem conversar e encontrar uma solução. Ah, a síndrome do pequeno poder… Pessoal virou o ano pedindo paz na Terra e na primeira oportunidade faz justamente o contrário. O que temos agora é um animalzinho passando fome e sede enquanto seres humanos seguem usando o grupo on-line do condomínio para despejar frustrações pessoais em forma de reclamações condominiais. Tem ali pouco ou nada de cidadania. Sobra olhar para si mesmo. Não é surpresa. Apenas um reflexo do mundo. P.S.: Você encontra no YouTube bonitas versões da oração de São Francisco de Assis, protetor dos animais. É linda, recomendo ouvir depois da leitura do texto. Porque onde houver ódio a gente tem que levar o amor. P.S. 2: Vi hoje cedo um pote de água escondido no jardim. Alguém colocou. A revolução continua.