(Reprodução) Vivemos tempos em que o mundo parece ter desaprendido a delicadeza. A lógica que organiza nossas relações nas redes, na política, nas ruas e até dentro de casa é a da guerra: vencer, atacar, expor, humilhar, eliminar. Tudo se transforma em trincheira. Tudo passa a ser inimigo. Nesse cenário, a morte do cãozinho Orelha não é apenas a perda de um animal; é um sintoma. Um daqueles acontecimentos profundamente reveladores, que escancaram o quanto nos tornamos capazes de atravessar a dor do outro sem sequer diminuir o passo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Luiz Carlos Restrepo, em O Direito à Ternura, já alertava que sociedades excessivamente orientadas pela eficiência, pela produtividade e pela razão instrumental tendem a produzir subjetividades endurecidas. Perdemos, diz ele, a autorização para sentir. A ternura passa a ser percebida como fraqueza quando, na verdade, é tecnologia de sobrevivência psíquica e social. Orelha morre e o que mais se perde com ele é a nossa capacidade de nos afetar pelo que parece pequeno demais para disputar manchetes, mas grande demais para quem sente. Essa lógica bélica não precisa de bombas para funcionar. Ela se manifesta quando naturalizamos a brutalidade cotidiana, quando tratamos a vida, humana ou não, como dano colateral de um sistema que exige pressa, desempenho e indiferença. Orelha não tinha estratégia, não tinha lado, não tinha discurso. Tinha apenas um corpo vulnerável e uma existência simples. Talvez seja justamente isso que tanto incomode: sua morte denuncia o quanto nos afastamos daquilo que Manoel de Barros chamava de “as grandezas do ínfimo”, daquilo que não serve para nada, mas vale tudo. Cuidar dos afetos, hoje, é um gesto político. Quase um ato de desobediência civil. Num mundo que nos treina para reagir, odiar e julgar, escolher a empatia é desacelerar o conflito. Carlos Drummond de Andrade escreveu que “no meio do caminho tinha uma pedra”; no nosso, parecem existir corpos simbólicos que aprendemos a contornar sem olhar, como se parar fosse um luxo que já não podemos nos permitir. A crônica, a poesia e a canção insistem em nos fazer parar. Chico Buarque, em tantas letras, lembra que a delicadeza também é forma de resistência. Caetano Veloso canta que “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” e talvez possamos ampliar: gente, bicho, vida nenhuma é descartável. A cultura, quando não se rende inteiramente à lógica da guerra, funciona como abrigo: devolve-nos a sensibilidade que o cotidiano insiste em nos roubar. O que a morte do cãozinho Orelha nos pede não é apenas indignação momentânea, dessas que se dissolvem na próxima rolagem de tela, mas uma revisão de postura. Que tipo de mundo estamos fabricando quando o sofrimento do outro já não nos convoca? Que guerra é essa em que não sabemos mais distinguir força de violência, coragem de crueldade, justiça de vingança? Restrepo diria que uma cultura que nega o afeto adoece e adoece seus vínculos, suas cidades, sua ética. Talvez cuidar dos afetos seja reaprender a olhar. Diminuir o tom. Suspender o ataque. Escutar antes de reagir. Permitir que a dor de um cachorro desconhecido nos atravesse, não por sentimentalismo barato, mas porque ainda reconhecemos ali algo de nós. Enquanto formos capazes de chorar Orelha, ainda há chance. Quando nem isso nos comover, a guerra já terá vencido — e terá feito isso sem disparar um único tiro.