Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton em cena (Reprodução) Todo relacionamento cria um idioma próprio. São olhares, piadas internas, silêncios e pequenas convenções que só fazem sentido para quem compartilha a vida. O problema começa quando esse idioma deixa de ser "falado". Nem sempre porque o amor acabou. Às vezes, é apenas a escolha de preferir ter paz a ter razão. Mas, quando as verdades vêm à tona, o caos se instala e chega o momento de decifrar o motivo de ainda estar ao lado daquela pessoa. Essa é a linha mestra de O Convite, a comédia dramática sobre a vida privada dirigida por Olivia Wilde. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com roteiro assinado por Rashida Jones e Will McCormack, o longa-metragem é uma refilmagem da comédia espanhola Sentimental (2020), escrita e dirigida por Cesc Gay, baseada em sua própria peça Os Vizinhos de Cima. A trama parece despretensiosa no início, apenas para surpreender o espectador a cada nova cena e a cada novo golpe de sinceridade. O enredo acompanha Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal cuja relação perdeu o entusiasmo dos primeiros anos, enquanto a comunicação já não é das melhores. Quando recebem os vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar, o prato principal é um menu de verdades constrangedoras — quase indigesto, especialmente por parte de Joe. Contrariado por não ter sido consultado sobre o convite feito pela esposa, ele deixa claro seu desconforto desde o início. No entanto, uma proposta inesperada muda completamente o rumo da noite. O convite surpreendente reacende o desejo sexual de Angela e Joe, mas também ameaça destruir um casamento corroído pela rotina e pelas mágoas. Aos poucos, as provocações dão lugar às confissões, e o espectador percebe que o maior risco daquela noite nunca foi aceitar o convite, mas dizer a verdade. O mérito do roteiro está em mostrar que a crise do relacionamento resulta do acúmulo de conflitos, ressentimentos, frustrações, expectativas não correspondidas e palavras nunca ditas. O convite dos vizinhos apenas ilumina rachaduras que existiam muito antes daquele jantar. É dessa percepção que nasce o humor. O filme explora a dor e a melancolia de uma relação desgastada com inteligência e na medida certa, sem diminuir o drama do "momento em que o copo está cheio e já não dá mais para engolir", parafraseando o saudoso Gonzaguinha. Cada protagonista carrega sua própria bomba-relógio, formada por ciúme, insegurança, rotina, desejos reprimidos, frustrações profissionais e diferenças de personalidade. Nada soa caricato em O Convite. É a comédia da vida privada contada em tom sério, mas com muito humor. Esse equilíbrio estabelece uma forte identificação com o público. Toda a história se passa em um apartamento antigo e espaçoso, herdado dos pais de Joe e decorado por Angela. Imenso e desorganizado, o ambiente funciona como metáfora do distanciamento emocional do casal e do vazio que ambos carregam. O Convite tem a dinâmica de uma peça teatral: tudo acontece em um único cenário, mas com interpretações menos apoteóticas e mais intimistas, ao estilo dos dramas conjugais de Woody Allen. O filme é dinâmico, humano, caótico, leve e sensível. O elenco é irretocável. Olivia Wilde confere à personagem ironia e vulnerabilidade sem recorrer ao previsível. Seth Rogen interpreta um homem que reprime sentimentos e desejos sem perder sua habilidade para a comédia. Penélope Cruz acrescenta espontaneidade e sensualidade ao enredo, enquanto Edward Norton compõe um homem magnético, enigmático e absolutamente seguro de si. O Convite expõe uma situação comum, mas raramente encarada: movidos pelo instinto de fazer a relação dar certo, muitos casais sobrevivem às mentiras. O difícil, às vezes, é sobreviver às verdades. Boa semana!