O Agente Secreto trata-se de um longa peculiar que, talvez, não impressione o público à primeira vista (Divulgação) O Agente Secreto traça uma trajetória notável, conquistando prêmios, a aclamação da crítica em geral e colocando o Brasil novamente na rota do Oscar. Trata-se de um longa peculiar que, talvez, não impressione o público à primeira vista, porque o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho tem um modo muito particular de fazer seus filmes. Seu estilo foge ao popular e ao convencional, sendo repleto de signos a serem decifrados a cada cena. A atenção aos detalhes é indispensável. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nesse thriller de ficção, o cineasta tece uma crítica social e política contundente, fria e calculada, explorando o risco letal da corrupção e do abuso de poder favorecidos pelo sistema político vigente. Retrata o comprometimento de todas as instituições, da polícia ao principal jornal da cidade, deixando um rastro de mortes sob a égide da impunidade. Kleber Mendonça Filho expõe um sistema podre, violento, coercivo, sanguinolento, impune e indigesto, enraizado no Recife, em Pernambuco, em 1977, período da ditadura militar no Brasil. Na trama, o regime político da época é apenas pano de fundo, alimentando o comprometimento do sistema e o jeitinho brasileiro de levar vantagem custe o que custar. Tudo isso é ilustrado com a história de Marcelo, um pesquisador acadêmico interpretado por Wagner Moura. Marcelo é um cidadão comum marcado para morrer por ter desafiado um empresário influente. Para escapar das emboscadas, ele ingressa em um esquema parecido com o serviço de proteção a testemunhas. Mesmo protegido com outra identidade, segue vivendo uma dinâmica de gato e rato em que qualquer descuido pode ser fatal. A atuação de Wagner é memorável, emoldurada por seu charme, carisma e caprichado sotaque recifense — o ator é baiano. As conspirações dão ritmo à trama, que se estende por 2h40, envolvendo um elenco de atores notáveis. Destaca-se Tânia Maria, de 78 anos, que interpreta a misteriosa dona Sebastiana, com aparições repletas de graça, humor e sabedoria. Maria Fernanda Cândido também se destaca como Elza, integrante da organização que protege pessoas marcadas para morrer. O filme é ambientado em 1977, e cada detalhe leva o espectador àquela época, dos figurinos aos cortes de cabelo, adereços e carros, além da reprodução da qualidade da imagem. O longa tem um quê de Cinema Paradiso, com cenas gravadas dentro do Cinema São Luiz, patrimônio histórico e cultural de Recife, simulando sessões de clássicos como Tubarão, O Iluminado e A Profecia. O tubarão, usado como metáfora, remete aos predadores do Recife e aos criminosos. O realismo fantástico compõe uma crítica à perseguição de homossexuais e profissionais do sexo. O filme deixa pontas soltas que pedem desfecho, mas se revela atemporal como narrativa contra a corrupção, ao mesmo tempo em que é um tributo a Recife, à cultura brasileira e ao carnaval pernambucano. O Agente Secreto tem potencial para concorrer ao Oscar 2026 em categorias como Filme Internacional, Direção, Roteiro, Ator (Wagner Moura) e Fotografia. O longa já recebeu prêmios de Direção e Ator no Festival de Cannes, entre outros. Prestigie o cinema brasileiro!