Ao lado do cãozinho superfofo Krypto, David Corenswet é uma boa surpresa na pele de Superman/Clark Kent (Divulgação) Superman está mais humano e vulnerável do que nunca. Ele apanha, sofre, sangra e chora. Ser Clark Kent o conecta àqueles que ama, à jornalista Lois Lane e aos seus pais adotivos Martha e Jonathan Kent, enquanto ser o Homem de Aço o permite defender os oprimidos, os que estão em perigo. Ele vem de Krypton, mas o seu sentimento de pertencimento à Terra é mais forte. Aliás, sempre foi. A Terra é o mundo que ele conhece desde os seus 3 anos de idade. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sob esse argumento de que Kal-El é mais filho da Terra do que de Krypton, um imigrante totalmente integrado à cultura e aos costumes terrenos, James Gunn, roteirista, diretor e co-CEO da DC Studios, fez um voo arriscado ao atenuar o Homem de Aço no novo filme Superman, de 2025. Ele derruba um estereótipo que está no imaginário coletivo desde a sua primeira aparição nos quadrinhos, em 1938, que ganhou a aparência clássica e máscula de Christopher Reeve em 1978 e ainda mais músculos com Henry Cavill em 2013. Definitivamente, Gunn não se prendeu à história original do invencível herói alienígena com superpoderes. Manteve o traje azul-cobalto, com cinto amarelo, cueca, capa e botas vermelhas e acentuou o viés político tradicional com temas atuais como o conflito armado entre dois países fictícios do Oriente Médio, colocando Superman como o intercessor do povo oprimido e o seu arqui-inimigo Lex Luthor (Nicholas Hoult) como o magnata que financia a guerra em troca de poder e influência. Dessa vez, o mal tem mais vantagem, num mundo mais realista. Sem dó, o cineasta expõe Superman a todo tipo de ataque da era atual, de cancelamento nas redes sociais a agressões do povo nas ruas, passando por críticas mordazes da mídia televisiva e apanhar de criaturas mais fortes que ele. Uma vulnerabilidade que pode tanto encantar quanto repelir o público, do fã mais nostálgico às novas gerações. Contudo, David Corenswet como Superman é uma escolha acertada. O ator lembra Reeve. Além de ter a mesma altura, 1,93 metro, expressa a mesma doçura, integridade e postura corporal do ator que faleceu em 2004. O Superman de Corenswet é um homem em dúvida, um Clark Kent ainda mais desajeitado, fragilizado por crises pessoais e dilemas morais — e absolutamente apaixonado por Lois Lane. A intrépida jornalista, incorporada por Rachel Brosnahan, é uma mulher independente que não precisa ser salva pelo Superman. Ao contrário, ela é sua rede apoio emocional e racional, confidente, conselheira, amiga e amante. Ainda assim, a presença de Lois é subaproveitada. Tampouco, o lendário editor-chefe do Planeta Diário, Perry White (Wendell Pierce), é um mero figurante, enquanto Jimmy Olsen ganha importância na história. Mas, a maior controvérsia do filme é o desvio moral dos pais biológicos de Kal-El, Jor-El e Lara, que passam de vítimas a tiranos. Voltando a Lex Luthor, ele é um vilão caricato. De gênio bilionário do mal obcecado por destruir Superman, ele é reduzido a um megalomaníaco invejoso e surtado. Não por culpa de Nicholas Hoult, que é um excelente ator, mas pelo arco idealizado por Gunn. Aliás, a tentativa de expansão do universo DC com a entrada de outros heróis meta-humanos no enredo, embora visualmente empolgante, tira foco da jornada do protagonista. O herói-título divide tela com personagens menos carismáticos. A pluralidade vira uma bagunça cansativa. Apesar disso, os efeitos visuais são deslumbrantes, com cenas de ação dinâmicas e bem coreografadas. A trilha sonora, com citações majestosas do tema clássico de John Williams, é o elemento emocional que conecta o filme à memória afetiva de gerações. Agora, quem rouba a cena mesmo é o Krypto. O cão superpoderoso, com tempo de tela na medida certa, é o “molho” do filme — leve, divertido e atentado. O cãozinho superfofo é o elo entre o heroísmo épico e o afeto cotidiano. Em suma, Superman é um filme de contrastes. Há beleza e sensibilidade, mas também riscos narrativos e cenas pós-créditos. Gunn quis voar diferente. As bilheterias dirão. Superman é mais coração do que aço.