(Divulgação) Desde pequenina, sonhava em tocar piano. Imaginava meus dedos passeando rápido pelas teclas, alcançando notas como os grandes músicos, dedilhando e levando emoção aos corações pelos ouvidos. Pedia aos meus pais com frequência para estudar, mas acreditavam ser coisa de criança, afinal, por que a filha de um trabalhador do Porto de Santos insistia em aprender música clássica no mais imponente dos instrumentos musicais? Completei 15 anos e me dei de presente vinis de Tchaikovsky, Chopin e Beethoven, desprezados num sebo qualquer. Nesse momento, meus pais se convenceram de que o desejo era genuíno. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O sonho durou pouco. Depois de três anos, larguei as aulas. A falta de um piano em casa para praticar e a necessidade de começar a trabalhar forçaram outras escolhas. Guardei esse devaneio por mais de 30 anos, quando no início desse ano decidi resgatá-lo e me matricular em uma escola de música. Comprei um piano e segui acreditando que a pouca lembrança seria capaz de me ajudar a reconhecer notas, tocar de forma distinta e coordenada em cada mão, sincronizar os pedais com a destreza de quem dirige um carro. Nada disso. Engoli a frustração e já recolhia as partituras quando ... aconteceu. Aconteceu aquilo que muitos chamam de “mera coincidência”, mas Carl Gustav Jung – grande nome da psicologia ao lado de Sigmund Freud – denominou sincronicidade. Já ocorreu com você? Claro que sim. Nunca pensou em alguém e recebeu uma mensagem dessa pessoa poucos segundos depois? Ou quando aquele livro a respeito da crise que estava passando encontrou você na esquina de casa? É quando falamos “o universo mandou” ou, “coincidência demais”. No meu caso, foi um encontro que me agarrou alegre e faceira como a Valsa do Minuto de Chopin. Em Diamantina (MG), conheci dois músicos excepcionais, assim “do nada”, que me convidaram a ouvi-los num bar fora do circuito do centro histórico. O flautista e o pianista incorporaram toda a transcendência que a música clássica é capaz de desfilar. As notas me elevaram da cadeira, flutuei com elas pela melodia, mesmo sem sair do lugar. Delicadamente, saí da penumbra da desesperança e me conectei com alguém que eu já queria ter sido há muito tempo. A sincronicidade de Jung caiu no meu colo como uma partitura voando pela sala. Aconteceu com ele também. Certo dia, durante uma sessão, uma paciente contou ter sonhado com um escaravelho dourado. Nesse momento, um besouro muito parecido bateu na janela do consultório. Jung entregou o inseto à paciente dizendo: “Aqui está o seu escaravelho”, tornando o caso um símbolo da sincronicidade. Podemos chamar de acaso, mas essas ocorrências muito improváveis alcançam um patamar além das meras casualidades, pois conferem um significado subjetivo a partir de uma associação de pensamentos, emoções ou sonhos internos, dentro da nossa mente, com eventos externos. Você sente que há um sentido profundo envolvido naquilo tudo. O pianista acabou sua apresentação, visitou minha mesa e perguntou: “Gostaria de tocar?”. Sabia que não era a hora, ainda tropeço nas escalas e confundo dó com mi e fá com lá, mas respondi confiante nas mensagens do “universo síncrono” e em um futuro em que o piano e eu seremos bons amigos: “Sim, um dia, gostaria”.