(Divulgação) Atriz, fonoaudióloga, coach, empreendedora e especialista em comunicação humana. Essa é Isis Siqueira, de 39 anos, que há mais de uma década ajuda pessoas a se expressarem de forma autêntica no ambiente profissional e também nas relações pessoais com base no teatro. Autora do livro “É Só Ser - Insights de Vida e Viagem” e, em entrevista ao domingo+, fala sobre o poder da comunicação, os desafios proporcionados pela tecnologia e o quanto uma vida pode mudar diante de bons exemplos. “A comunicação não está só em falar. A maior parte é escutar, perceber, sentir”, destaca Isis. Como especialista em comunicação humana, o que você nota em relação ao público que atende nos cursos e treinamentos? Quando falamos em comunicação, a maioria das pessoas pensa que é só sobre o ato de falar, mas a comunicação humana é muito mais do que isso. É como a gente escuta e se expressa nos três níveis: intrapessoal (com a gente mesmo), interpessoal (com as outras pessoas) e em público (oratória). A base de tudo é a nossa comunicação intrapessoal - e é onde percebo que as pessoas pecam mais no dia a dia, mantendo conversas internas que prejudicam os outros níveis. Dou um exemplo: se você tem uma apresentação para fazer e está com tudo organizado, mas antes de começar pensa que vai dar tudo errado, provavelmente tudo dará errado mesmo. E essa conversa interna, na maioria das vezes, não é tão educada e amigável como a que direcionamos às outras pessoas. Hoje, vivemos ultraconectados e cada vez mais presentes no universo digital. Quase tudo é feito por mensagens e aplicativos. Isso tem afetado a comunicação interpessoal? Pensando de forma mais ampla, se por um lado o aumento da conexão via mensagens escritas reduz a proximidade para algumas pessoas, para outras é a melhor forma de conexão - ou a única. Isso abre espaço para que mais pessoas tenham “voz” e participem ativamente em um mundo que é bastante barulhento. É positivo também para várias pessoas com deficiências, importante destacar. Acredito que as tecnologias oferecem muitas possibilidades para a comunicação humana. No entanto, se a gente caminha para a exclusão de outras formas de expressão, estaremos limitando a participação das pessoas que precisam do toque, do olhar, da proximidade. O melhor caminho seria apostar em propostas híbridas e aprender a usar todos os recursos e espaços disponíveis de forma empática, respeitosa e consciente para melhorar nossas relações interpessoais, independentemente do contexto, criando um mundo cada vez mais inclusivo. Para se comunicar bem, a pessoa precisa ser extrovertida ou isso é possível também aos introvertidos? Há dois pontos importantes sobre este tema. O primeiro é que precisamos mudar a visão da comunicação ideal como sendo falar alto e muito, com gestos grandes, abraçando pessoas ou sendo sorridente 24 horas por dia. Quando a gente fala de alguém comunicativo, é o que imaginamos muitas vezes. Mas a comunicação não está só em falar. A maior parte é escutar, perceber, sentir... Isso é o que leva à empatia, por exemplo. Além disso, o silêncio também é expressão. Os introvertidos (grupo no qual me incluo, assim como grande parte das pessoas que atendo) podem ajudar na mudança desta cultura se expressando de forma mais flexível e presente, ocupando os espaços com autenticidade, sendo quem são. Ninguém precisa gritar para ser ouvido. O melhor caminho é conhecer sobre a própria comunicação, sobre os recursos comunicativos, como expressão corporal, voz, fala, organização dos pensamentos, gestão das emoções, intenções e atitudes, e saber ser flexível, se expandindo quando preciso e mantendo o silêncio quando necessário. Quando se fala em comunicação, logo se pensa no mundo corporativo. Contudo, ela pode ajudar de forma positiva também no aspecto pessoal? Eu trabalho com as duas frentes. Algumas pessoas me procuram para melhorar a comunicação no âmbito profissional, outras no âmbito pessoal ou afetivo. Mas a verdade é que não tem como separar. A habilidade de comunicação é uma só. E como meu trabalho leva em conta a expressão como um todo, quando a gente começa a aprimorar a oratória ou as relações no meio corporativo, por exemplo, automaticamente vemos resultados melhores nas relações com família e amigos. Até mandar áudio no WhatsApp funciona melhor. Você é atriz, graduada em Fonoaudiologia e comandou um grupo de teatro para empresas, entre outras tantas atividades. Por que escolheu os atendimentos de coaching e mentoria para atuar? Sou atriz profissional há 23 anos e entrei no teatro, quando criança, por ser muito tímida. Quando escolhi a faculdade de Fonoaudiologia, em 2011, minha intenção era utilizar a fono para atender atores nas questões profissionais. No entanto, acabei descobrindo que os jogos teatrais, que eu já utilizava quando eu era professora de teatro, eram excelentes para melhorar a comunicação no contexto fonoaudiológico. Isso foi objeto de estudo da minha graduação e também da pós-graduação em Fonoaudiologia e Expressividade. O teatro empresarial surgiu ainda no meio da faculdade e após a formatura eu também fiz minha formação em PNL (programação neurolinguística). Eu tinha várias coisas: teatro, fonoaudiologia, PNL, era empresária e atendia empresas. Neste contexto eu descobri o coaching e me encantou a possibilidade de transformar tudo o que eu tinha de conhecimento e experiências em ferramentas para o desenvolvimento humano na área da comunicação. Não virei coach da noite para o dia nem abri mão de toda a bagagem que possuía. Como o teatro se torna uma ferramenta de desenvolvimento para a comunicação humana? Ele permite que uma realidade alternativa seja criada e a gente aja em cenários possíveis ou impossíveis, aprendendo de forma leve e divertida. No “palco”, é possível se observar e se experimentar sem os riscos da vida real e com possibilidades infinitas. O foco aqui não é formar atores nem criar cenas perfeitamente estéticas, mas experimentar outras formas de existir em um contexto seguro. Com isso, registramos conteúdos de forma mais emocional e profunda, e desenvolvemos habilidades que depois podem ser transferidas para contextos reais. No meu trabalho, utilizo principalmente os jogos teatrais, com base nas obras de Augusto Boal, Viola Spolin e Ingrid Koudela, entre outros autores, adaptadas para o contexto organizacional ou para o desenvolvimento de habilidades específicas - como criatividade, flexibilidade, iniciativa, agilidade, trabalho em equipe, liderança, empatia, escuta ativa, gestão do tempo, motivação, e outras - todas relacionadas e dependentes da comunicação humana. Como é o feedback do público? Sempre muito positivo. São pessoas que conseguiram realizar apresentações e palestras como desejavam, com prazer e segurança. Há também aqueles que aprendem a fazer novos amigos e manter relacionamentos saudáveis; equipes que descobriram como gerar empatia com clientes e internamente; líderes introvertidos com muito conhecimento técnico que conseguiram se conectar com seus times, transmitir informações com clareza e estabelecer limites; pessoas que entenderam o que precisam fazer para vender o próprio trabalho com mais leveza e eficácia... E eu me sinto muito realizada com meu trabalho, porque a cada pessoa que ajudo, aprendo mais sobre mim e me desenvolvo também. O aprimoramento da comunicação humana é uma jornada para a vida toda. Você nota em sua jornada a devida valorização dos coaches ou ainda há muito estigma? Há muito estigma, e com razão (risos). Eu mesma fico com pé atrás quando ouço essa palavra e, por um tempo, nem quis usá-la para definir minha atuação. Quando fiz minha formação internacional em coaching, em 2014, tudo era mais sério. As formações eram caras, muito completas e profundas. A gente tinha que praticar para receber o certificado porque o processo de coaching não tem nada a ver com um “coach” no Instagram dizendo o que você deve ou não fazer da sua vida. É um processo sério, em que o coach traz mais perguntas que respostas. A função é ajudar o participante a atingir seus objetivos da melhor forma para ele, encontrando suas respostas, seus meios.