(Freepik) Fim de semestre para a professora. Últimos trabalhos a corrigir, notas a lançar e provas de exame a preparar. Os horários das aulas ficam mais flexíveis e sobra um tempinho para bater papo com as turmas sobre outras coisas da vida, de maneira mais descontraída. É quando passo de docente a conselheira. E sempre, todo semestre, alguém pede para falar a sós. Em geral, sobre alguma angústia, dúvida. Invariavelmente, chega um coraçãozinho partido para saber quando para de doer. Sim. Professora também tem essa função. Pensam elas e eles que, com a idade, muito já se viveu. Logo, temos as respostas para sentimentos os mais variados. Inclusive os não correspondidos ou interrompidos. Não é bem assim. Pelo menos, se não temos todas as respostas, podemos chancelar o “vai passar”. E lá estava eu, pouco antes de participar de uma banca, quando uma das minhas alunas pede licença para entrar na sala. “A senhora tem um minutinho, pro?”, perguntou tímida, sentando devagar na cadeira à frente da minha mesa, os longos cabelos castanhos ondulados emoldurando aquele rostinho lindo, tão cheio de colágeno ainda, mas olhos tristes. O namoro de oito meses acabou. Partiu dele. Ela diz que se esforçou para entender os problemas do moço, ajudar, ser afetuosa. Deixou de dizer o que incomodava no relacionamento para não aborrecê-lo ainda mais. Afinal, ele enfrentava muitos problemas. “Meu bem, e os seus problemas? Quais têm sido nos últimos meses?”, perguntei. Eram muitos. Tantos ou mais do que os do namorado. Alguns eu já sabia. Outros me surpreenderam, inclusive pela confiança em partilhar. A questão é que ela se doava e anulava as próprias dificuldades por amor. Aprendeu assim. E cá estamos nós, mulheres, geração após geração, diminuindo para caber. Dando o máximo para receber o mínimo. Não é mesmo uma conta fácil de fechar. Os rapazes também aprenderam de uma maneira ruim o que é se relacionar. É controlar a situação, principalmente. Quando não entendem como fazer o que lhes disseram ser o certo, ficam confusos, agem mal. Todo mundo sai perdendo. O contexto não ajuda. É a era dos matchs, que levam ao superficial, que se tornam descartáveis pelo excesso de opções — acabam na solidão. Como saber se quem vem depois ali, na próxima tela, não é melhor, mais interessante? A isso se junta uma incapacidade crescente de criação de vínculos. Não estamos falando de conexão, que é sobre encontro. O vínculo estabelece. Não é jogo no qual se teme sentir e demonstrar, em que ganha quem finge não se importar. Para a psicanalista Carol Tilkian (siga @caroltilkian_amorespossiveis no Instagram), é como se hoje todo vínculo fosse prisão e toda entrega, ameaça. Estamos acabando com possibilidades de afeto porque, em algum momento, nossos laços nos apertaram demais, foram um nó ao invés de fita, talvez tenham nos estrangulado. O resultado é muita gente transformando o processo de autoconhecimento e construção de autonomia em uma falsa maturidade emocional. Na ânsia pela liberdade e por uma suposta leveza descompromissada, não sabemos mais nos relacionar. Sempre vale lembrar: amar dá trabalho. Não é suportar o insuportável — como tantas histórias que conhecemos e eram tão mais corriqueiras no passado. É entender que não há perfeição e sempre há espaço para ser quem se é. Foi mais ou menos isso que conversei com minha aluna. Pareço desmotivacional, eu sei. Mas não deixei de segurar suas mãos e dizer: nem sempre o amor vence, mas você ainda será muito feliz. Os que desejam o amor existem, não são poucos. E tenho para mim que esse jeito raso de viver, em ritmo de rede social, começa a incomodar. Um excelente sinal para o amor chegar a sua melhor versão. Abracei minha aluna. Senti as lágrimas molhando minha blusa no ombro. Ela sorriu. Agradeceu. Se disse mais aliviada e confiante. Quem sabe, pronta para amar novamente, em outro lugar. P.S.: She Will Be Loved, do Maroon 5, é uma boa canção para arrematar nosso texto. Porque sim, ela será amada.