Filha do ícone do reggae Jimmy Cliff, Nabiyah Be construiu uma carreira internacional que inclui trabalhos em Pantera Negra e Daisy Jones & The Six, além de uma premiação no teatro norte-americano. Agora, após 14 anos nos Estados Unidos, a baiana retorna ao Brasil para explorar novas possibilidades. No Globoplay, interpreta uma poderosa agente de futebol na série Jogada de Risco. Nesta entrevista, fala sobre suas raízes, a influência da música, o primeiro álbum e a experiência de se redescobrir como artista brasileira. Depois de 14 anos vivendo nos Estados Unidos, o que voltar ao Brasil despertou em você, pessoalmente e artisticamente? Voltei para o Brasil com muita sede ancestral, de conhecimento identitário, conexão e, principalmente, de arte. Fiquei muito feliz também em perceber como o mercado audiovisual me acolheu rapidamente. Durante esses 14 anos fora, tive a oportunidade de participar de projetos internacionais e viver experiências que foram fundamentais para o meu crescimento pessoal e profissional. Foi em Nova Iorque que me firmei como artista e, aos poucos, fui me descobrindo também como adulta. Hoje, volto trazendo comigo a bagagem de quem estudou, viveu e construiu uma vida em torno da arte. De certa forma, sinto que faço o caminho inverso de muitos artistas: comecei minha carreira fora do país e agora retorno para firmar uma sustentação das minhas raízes. Esse movimento tem sido cheio de riquezas, descobertas e também desafios. Tem sido muito especial nutrir essa conexão com o Brasil e, ao mesmo tempo, ser reconhecida e acolhida como uma artista brasileira. Em Jogada de Risco, você interpreta uma agente da Fifa poderosa e bem-sucedida. O que encontrou nessa personagem que ainda não tinha experimentado em outros papéis? Foi muito divertido construir a Alessia justamente por ela ser uma mulher tão poderosa e segura de si. Ela sabe exatamente o que quer, tem muita presença, é inteligente e está quase sempre no controle das situações. Ao mesmo tempo, é uma personagem que me permitiu explorar a diversão de um lado um tanto antipático, arrogante e não agradável. Fiz muitas personagens boazinhas até aqui. Além disso, foi uma experiência nova para mim por nunca ter interpretado uma personagem britânica. Pude explorar meu interesse por sotaques e descobrir o quanto gosto desse processo de construir uma personagem também pela voz e pela maneira de falar. Sinto que ela veio abrindo portas para sucessão de personagens que até então eu não havia feito no audiovisual, que são mulheres insubmissas e que não pedem permissão para usufruírem de seu poder. Você cresceu acompanhando seu pai, Jimmy Cliff, em turnês e chegou a cantar com ele e com Margareth Menezes. Em que momento percebeu que a música não seria apenas uma herança familiar, mas também um caminho seu? Acho que foi um processo bem natural e que, no fundo, eu sempre soube. A atuação e a dança foram veículos de expressão que me permitiram dissipar a pressão que sentia em amar e fazer música vindo da linhagem que venho, que me permitiram manobrar por vezes uma certa timidez e também aprender a me conduzir no palco dentro de uma performance. Mas foi inevitável segurar o microfone na mão e saber que a minha voz era capaz de contar muitas histórias além da minha. Seu primeiro álbum, O Que o Sol Quer, mistura português e inglês e reúne referências brasileiras e internacionais. Que história você queria contar sobre você mesma nesse disco? Sempre digo que O Que o Sol Quer é um álbum conceitual, ele conta a minha história. A de uma pessoa que saiu de um ambiente seguro e familiar para cruzar os medos do mundo a fim de se descobrir e assim ter algo a dividir com os seus que apesar de diferente contém simplicidade e verdades sobre a vida. É um álbum que se trata muito de questões identitárias e padrões familiares, quase não tem músicas de amor, mas mergulha nas perguntas nunca feitas e nos segredos ocultos que mantemos de nós mesmos. Você e Margareth Menezes têm uma história muito particular, já que ela foi responsável pela união de seus pais e depois se tornou sua madrinha. Como foi reencontrá-la no estúdio, tantos anos depois, para gravar Querera? A Maga é uma querida e uma profissional de respeito, tenho muita admiração por ela. Apesar de todo o envolvimento familiar, ela sempre me respeitou, me honrou como artista primeiro e me deu palco e voz para expressar minha verdade. Em Querera, ela me deu bastante espaço para compor e nos divertimos fazendo a canção. Eu a admiro por sempre trazer temas de conscientização cultural e história de maneira divertida e leve para o povo. Você foi a primeira mulher negra brasileira a ganhar um Drama Desk Award. O que essa conquista representou para você e o que mudou na sua carreira? Quando aconteceu, eu não tinha consciência disso. Depois, fui procurar e me dei conta. Tem um lado meu que entende o quanto a vida foi generosa comigo e como tive tantos privilégios de poder estudar e nutrir um campo profissional no exterior com tão pouca idade. Me faz pensar como ainda somos poucas mulheres negras, especificamente atrizes brasileiras, se aventurando e tendo reconhecimento internacional. Quando penso que sou brasileira e jamaicana, essa gratidão e consciência se expandem, porque particularmente na área do teatro vejo poucas mulheres caribenhas. Entre Salvador, Jamaica e Nova Iorque, sua trajetória é marcada por diferentes culturas e identidades. O que você sente que carrega de cada um desses lugares quando sobe ao palco ou entra em cena? Adorei a analogia de subir ao palco, porque é justamente ali, no palco ou em cena, que essa magia acontece, e é quando percebemos tudo o que uma caminhada diversa pode nos proporcionar. Salvador para sempre será a terra-mãe, o território onde dou voz a minha adolescente e minha criança interna. Nova Iorque, minha segunda cidade, é também o solo fértil que me deu uma esperteza de faca afiada para exercer meu ofício com excelência. Los Angeles e Rio de Janeiro me proporcionaram um pouco do desfrute do meu trabalho e a consciência de que é possível trabalhar duro e desfrutar também. Mas para responder sua pergunta bem especificamente, quando subo no palco, a melhor parte de sentir que sou uma cidadã do mundo é perder a ilusão de separação e sentir que sou igual, ordinária e grandiosa como todos os seres humanos.