Mylla Christie está de volta às telas com as reapresentações de Meu Bem, Meu Mal, na Globoplay Novelas, e de A Viagem, recentemente na TV Globo (Fabiano Herrera/Divulgação) Mylla Christie, 54 anos, amadureceu diante das câmeras. Da dança à televisão, da música ao jornalismo, sua trajetória foi construída passo a passo enquanto o público a acompanhava amadurecer em cena. Aos 17 anos, viveu a protagonista Jéssica em Meu Bem, Meu Mal e, desde então, consolidou uma carreira marcada por intensidade, versatilidade e estudo. Hoje, revisita seus personagens com o olhar de quem segue curiosa e múltipla: atriz, produtora, empreendedora no mercado imobiliário e observadora atenta da transformação do audiovisual e da relação do público com seus ídolos. Sua carreira começou muito cedo e passou por dança, TV, música e jornalismo. Em que momento você percebeu que queria mesmo seguir pela atuação? Eu sempre quis ser atriz, na verdade, mas as oportunidades foram aparecendo. Minha mãe cuidava de mim, da minha carreira, então era um trabalho emendando no outro até eu chegar na Globo. Minha família me incentivou muito — minha mãe, minha parceira, foi minha empresária durante muito tempo, cuidou de mim em toda a adolescência. Essa minha formação como atriz ela acompanhou e incentivou muito. Hoje minha família continua me incentivando: meu filho e meu marido. A novela Meu Bem, Meu Mal marcou sua estreia como protagonista. Como aquela jovem de 17 anos lidou com a pressão e o aprendizado ao contracenar com nomes tão grandes da dramaturgia? Nossa, eu nem acredito até hoje! Com 17 anos, contracenando com Lima Duarte, José Mayer… tanta gente incrível naquela novela. E logo de cara fazendo uma protagonista! Foi tudo muito surpreendente para mim e para a minha família. Eu fui como uma esponja: absorvendo tudo, ouvindo as pessoas que já tinham experiência. A Adriana Esteves, por exemplo, já tinha trabalhado mais e me ajudou muito. Aquilo tudo era novidade, e eu não tinha muita formação. Sempre fui estudiosa, então durante a novela já comecei a ler os livros do Stanislavski, comecei minha biblioteca teatral, fui entendendo mais do meio e buscando cursos. No fim da novela, comecei a estudar com a Miriam Muniz — foram dois anos de teatro com ela — e depois fiz Wolf Maia. Foi maravilhoso. Acho que a Jéssica de Meu Bem, Meu Mal foi a porta de entrada para um caminho de ensinamentos que a TV Globo me dá até hoje. A Jéssica ganhou uma sobrevida nas redes com o meme do “Posso fazer uma perguntinha?”. Como você encara essa redescoberta do seu trabalho por uma geração que não viveu aquela época? É muito surpreendente ver que o público daquela época, que curtia a Jéssica e sua irreverência, agora convive com esse meme — que, na época, nem existia. A gente não tinha como rever uma cena a qualquer hora porque simplesmente não existiam dispositivos para isso. Hoje, você vê tudo no celular, no YouTube, no Instagram. A tecnologia permite que o jovem enxergue detalhes que antes passavam batido. Ficam as perguntas: será que antigamente a gente conseguia atingir o público como se atinge hoje? Será que era possível ver o artista por trás do personagem como hoje? Para mim, é muito importante ver a opinião do público jovem sobre Meu Bem, Meu Mal, que está no ar no Globoplay Novelas. Eu sempre leio o que comentam em cada post que faço da Jéssica. É muito bacana comparar antigamente com hoje. Você deu vida a personagens muito diferentes — de uma rebelde a uma médica homossexual em Senhora do Destino, passando por figuras bíblicas e espirituais. Qual papel mais te transformou pessoalmente? Foram todos. Não tem um específico. Cada personagem pegou uma fase da minha vida. Engraçadinha, por exemplo, foi uma época em que estudei muito Nelson Rodrigues: li tudo, todas as peças, todos os livros. Fiquei muito conectada com ele e com seu conceito de atuação. Em Comédia da Vida Privada, do Luis Fernando Veríssimo, com direção do Guel Arraes, eu estava ao lado de Nanini, Paulo Betti e Fernanda Montenegro. Foi um aprendizado enorme, não só pelo elenco, mas também por me aprofundar na obra do Veríssimo e na visão de Brasil que o Guel apresenta, que eu acho maravilhosa. Depois de uma carreira consolidada na televisão, você mergulhou no mercado imobiliário ao lado do seu marido. Como surgiu essa virada? Depois de muitos anos dedicados à televisão, meu marido e eu fundamos uma imobiliária, que está dentro de uma grande plataforma proptech, bem inovadora. Isso aconteceu em paralelo à minha carreira. Não mudou muita coisa, porque nossos investimentos no mercado imobiliário sempre existiram. Nós não divulgávamos antigamente porque os atores só apareciam na mídia quando tinham novela, teatro ou filme. Sempre fui criteriosa com isso. Hoje, com o lifestyle dos influencers, as pessoas querem saber da vida pessoal, e a gente compartilha mais. Não mudei de profissão; isso sempre foi uma atividade paralela, como é para muitos atores que compram e vendem imóveis sem divulgar. Hoje, eu divulgo e acabo encontrando gente da televisão também nesse mercado. E o futuro é sempre fazer bons negócios como produtora, como atriz e como empresária. Você acredita que ser “múltipla”, como você mesma define, já foi motivo de questionamento na sua carreira? Como lida com a expectativa de que artistas sigam apenas um caminho? Hoje eu sou múltipla. Sou atriz, em primeiro lugar, e nunca vou deixar de ser, é uma paixão. Fiz muitas novelas e pretendo voltar. Estou muito feliz de estar vivendo esse caminho de retorno. Eu teria feito exatamente o que fiz: ser produtora de audiovisual. Hoje, com o empoderamento feminino, vemos mulheres como Maria Ângela Jesus, presidenta da TV Cultura, e tantas outras liderando no meio corporativo. É uma oportunidade para mim seguir como produtora e atriz nos projetos que tenho feito. Com a volta de A Viagem e Meu Bem, Meu Mal à TV, como tem sido revisitar essas personagens hoje, à luz de tudo o que você viveu e evoluiu nesses anos? Estou muito orgulhosa de poder rever A Viagem no Vale a Pena Ver de Novo, na Globo, e Meu Bem, Meu Mal no Globoplay Novelas. São dois públicos diferentes. O Globoplay tem um público mais jovem do que o da tarde. Os comentários dos jovens me divertem muito. Meu filho, que tem 14 anos, é superfã do Manual do Mundo, adora o Iberê — a gente brinca dizendo que ele está sempre presente aqui em casa! Hoje os conteúdos são infinitos: YouTube, redes sociais… Antigamente não tinha nada disso. Você só via o artista na novela. Essa é a grande diferença.