Complexo é imenso: os museus têm 7 km e 20 mil obras expostas e ainda há a Basílica (Adobe Stock) Embora esteja geograficamente no coração de Roma, o Vaticano é, na verdade, um país independente — o menor do mundo em território e população. Essa peculiaridade geopolítica se reflete também na grandiosidade de suas atrações. Dos monumentais Museus do Vaticano à Basílica de São Pedro, passando pela mítica Capela Sistina, o Vaticano guarda alguns dos maiores tesouros artísticos e espirituais da humanidade — e saber como explorá-los com calma é a chave para uma viagem inesquecível. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como comprar ingressos para os Museus do Vaticano O primeiro passo para garantir uma visita tranquila é adquirir seu ingresso com antecedência pelo site oficial dos Museus do Vaticano (museivaticani.va). Recomendo escolher o primeiro horário disponível, geralmente por volta das 8h30. Isso evitará as longas filas que se formam já nas primeiras horas do dia e permitirá uma experiência mais contemplativa. Alugue o audioguia. Ele está disponível em vários idiomas e é imprescindível. É na Capela Sistina onde ocorre o conclave, rito de escolha do papa (Adobe Stock) Dica de ouro: vá direto à Capela Sistina Embora a Capela Sistina esteja teoricamente no final do percurso dos museus, uma dica preciosa pode transformar completamente seu passeio: vá direto para ela assim que entrar. Siga os corredores à esquerda, cortando parte do trajeto inicial, e você chegará ao espaço mais disputado do complexo com ele ainda vazio e quase particular. Com menos fiscalização nesse horário, é possível até sentar-se nos bancos e admirar com calma cada detalhe da obra-prima de Michelangelo — algo impossível nas horas de pico, quando o local se transforma em um mar de turistas apressados, empurrados por um fluxo contínuo e pelos guardas. Eu fiz isso duas vezes e deu certo. Michelangelo levou quatro anos para pintar o teto da Capela Sistina (entre 1508 e 1512) e mais cinco para finalizar o imponente Juízo Final, no altar, entre 1536 e 1541. É nessa sala que acontece o conclave, ritual secreto de eleição do papa. O filme Conclave, que pode ser visto no streaming Prime Video, mostra todo o rito. Agende cedo O segredo está em agendar um horário cedo e seguir o meu conselho de ir logo à Capela Sistina antes dela se transformar num corredor apressado e apertado. Ver o teto e o Juízo Final com a calma e o silêncio que merecem é um privilégio raro, que torna a experiência em algo espiritual — mesmo para quem não é religioso. Não se pode fotografar nem filmar o interior, por questões de preservação e respeito. Mas talvez isso seja uma dádiva: assim, a memória permanece como o que ela verdadeiramente é — um espaço de contemplação, onde arte, fé e história se entrelaçam com uma força impossível de capturar pelo celular. Depois, com calma, explore os outros tesouros do Vaticano, que são muitos — 20 mil obras expostas em 56 galerias. Por isso, use um sapato confortável e vá com tempo. Almoce ou lanche lá dentro em um dos restaurantes ou lanchonetes, o que também faz parte do passeio. Saindo da Capela Sistina, retorne com tranquilidade para explorar o restante do museu, que abriga uma das maiores coleções de arte e arqueologia do mundo. Há alas dedicadas ao Egito Antigo, com sarcófagos, papiros e esculturas milenares; à Mesopotâmia, berço das primeiras civilizações; à Grécia Antiga, com vasos, bustos e estátuas clássicas; e à própria Roma Antiga, com obras que testemunham o esplendor imperial. Destaque para a imponente Galeria de Mapas e as quatro Salas de Rafael, com obras belíssimas do artista renascentista. Não deixe de admirar também os jardins internos entre as galerias, espaços verdes repletos de esculturas e fontes, que oferecem um respiro visual entre tantas obras monumentais. E mesmo os próprios corredores, tetos e paredes dos museus são um espetáculo à parte, ornamentados com afrescos, molduras douradas e detalhes que fazem cada passo valer a pena. A Pietà, obra de Michelangelo, está na Basílica de São Pedro. Os corredores dos museus são uma por si só uma atração () Basílica de São Pedro: um templo da fé e da arte Ao sair, caminhe até a imponente Basílica de São Pedro, construída sobre o local onde o apóstolo Pedro teria sido martirizado e sepultado. Com sua cúpula monumental, desenhada por Michelangelo, ela é considerada a maior igreja do mundo, com capacidade para mais de 60 mil pessoas. Logo à entrada, à direita, está a famosa escultura Pietà, de Michelangelo, esculpida quando ele tinha apenas 24 anos. A cena da Virgem Maria segurando o corpo de Cristo é de uma delicadeza e emoção raras. A basílica também abriga túmulos papais, altares ornamentados e mosaicos deslumbrantes, além da cúpula. Missas solenes com o Santo Padre são celebradas ali, reforçando o caráter vivo do espaço como local de culto. Avenida que dá acesso ao complexo se diferencia das ruelas estreitas da cidade e foi aberta por Mussolini (Adobe Stock) A grandiosa Via della Conciliazione Um detalhe que chama a atenção ao chegar ao Vaticano é a ampla Via della Conciliazione, avenida que liga o Castelo de Sant’Angelo à Praça São Pedro. Ela contrasta com o restante do centro histórico de Roma, famoso por suas vielas estreitas e suas surpresas turísticas que surgem após cada curva, como a Fontana di Trevi ou o Pantheon. A avenida foi uma criação do regime fascista de Benito Mussolini, que a partir de 1936 mandou demolir dezenas de casas e prédios medievais para criar esse eixo de entrada triunfal. O nome, que significa Via da Reconciliação, simboliza o tratado de paz assinado entre a Santa Sé e o Estado italiano em 1929, após décadas de disputas políticas. Com calçadas largas, bancos e vista direta para a cúpula da basílica, é um convite para encerrar o dia com um café e um panini, uma pausa contemplativa ou algumas boas fotos da fachada da igreja ao pôr do sol. O conclave sob o testemunho da obra de Michelangelo Mais do que uma obra-prima de Michelangelo, a Capela Sistina é palco de um dos rituais mais secretos e simbólicos do mundo católico: o conclave, cerimônia que elege o novo papa. Construída entre 1475 e 1483 por ordem do papa Sisto IV (daí o nome Sistina), ela foi inicialmente concebida como uma capela papal privada. Sua estrutura é simples: um retângulo de 40 metros de comprimento por 13 de largura, com um teto alto e abóbada em berço. Mas o que impressiona está nas paredes e no teto — um verdadeiro manifesto visual da fé cristã. Michelangelo foi chamado para pintar o teto em 1508, a contragosto: ele se considerava escultor, não pintor. Mesmo assim, entregou uma obra monumental, finalizada em 1512, com mais de 300 figuras. No centro da composição estão cenas do Gênesis, como a criação de Adão — talvez a imagem mais famosa da história da arte. Em 1536, ele voltou à capela para pintar o afresco do Juízo Final, na parede do altar, finalizado em 1541. A intensidade emocional das figuras, a anatomia poderosa dos corpos e a dramaticidade do tema são testemunhas do conclave, o ritual para a escolha de um novo papa. Quando a cadeira papal está vaga — seja por falecimento ou renúncia —, os cardeais do mundo inteiro se reúnem ali em clausura total, sem contato com o mundo exterior, até que uma decisão seja tomada. O processo pode durar dias e inclui votações secretas, orações e momentos de reflexão. Após cada rodada de votação, as cédulas são queimadas: se não houve consenso, a fumaça que sai da chaminé é preta. Se um novo papa for escolhido, a fumaça é branca — um sinal que emociona multidões na Praça São Pedro. Durante o conclave, medidas de segurança e sigilo são extremas. A Capela é ‘varrida’ por equipamentos antiespionagem, e os participantes fazem um juramento de confidencialidade. Até hoje, poucos relatos escaparam sobre o que se passa entre aquelas paredes durante a eleição papal.