[[legacy_image_354659]] Sempre que alguém que eu conheço enfrenta a morte de um animalzinho de estimação, procuro amparar dizendo, entre outras palavras de conforto, “só quem tem entende”. Já não sei mais se deve ser assim. É preciso que a dor dessa perda, que é igual ou até maior que a despedida de seres humanos importantes para nós, seja respeitada e acolhida. Por qualquer pessoa. Em qualquer situação. Vou além. É preciso que esse respeito e essa acolhida sejam constantes, não apenas na hora da morte de um pet, celebrando essas vidas que são uma expressão de amor incondicional. Porque mãe e pai de pet existem sim. Quem não enxergou o sofrimento lancinante da perda de um filho na entrevista de João, tutor do golden retriever Joca, morto por erro da companhia área que o transportava? Faltava o ar a João, que mal conseguia falar, entre choro e desespero. Não é só um cachorro. É o amor da vida de alguém. Há luto. Saber da morte de Joca acabou com meu dia. Cheguei em casa e abracei forte minha Charlotte, minha Jeannie e meu Ginger. Meus três filhos de patas - Cha uma cachorrinha; Jennie e Ginger dois gatinhos, todos tirados da rua - por quem eu faço e faria tudo. Eles são minha dose diária de carinho, ternura e companheirismo. Fazem de mim alguém mais responsável e que dá valor ao momento presente. Me lembram de estar no aqui e agora, já que não temos tempo a perder, devido a suas vidinhas mais curtas, para amar. Recentemente, Charlotte foi atacada por uma outra cachorra no meu prédio. Me joguei no chão, no meio da confusão, para separar a briga e salvar minha filhotona. Uma amiga, que tem também filhos humanos, disse: “Mãe se joga mesmo no perigo que for para salvar a cria”. É triste a história de Joca existir para, finalmente, ampliar esse debate. Para que, finalmente, empresas como as aéreas sentem para definir regras que não tratem pets como apenas mais uma bagagem ou um detalhe. Claro que o bom senso deve prevalecer. Dependendo dos ambientes, por questões sanitárias, a entrada de animais não deve ser permitida. Como o ambiente interno de um restaurante ou de uma padaria. Não é o caso dos aviões. Inclusive, cães guia e de suporte emocional já viajam lado a lado com seus tutores. Não se tem notícia de cachorro ou gato que deu chilique, foi mal educado ou violento durante voo. Já de humanos… Em um mundo tão cheio de desigualdades e durezas a enfrentar, ver o afeto, o cuidado e o bem-estar dos animais em pauta me ajuda a acreditar um pouco mais na evolução da sociedade. Pelo menos nisso, estamos melhores em alguma medida. Entender que os bichinhos são seres sencientes, com sentimentos e emoções, é um grande passo para nós. Aproveito a história de Joca e faço o convite para que você olhe também para os outros animais, além de cães e gatos, como seres sencientes. Todos sofrem, têm dor e medo quando em perigo. Seja na queimada da floresta, seja no confinamento e na ida para o abate. Diminuir a quantidade de carne nas refeições e preservar a natureza que nos cerca também é sobre salvar. Desejar nossos pets seguros e colocar em risco outras vidas é incoerente. P.S.: Vale ouvir ao lado do seu filhote de patas a música Heading Home, de Theodore Shapiro, tema do filme Marley e Eu. Se você assistiu Marley e Eu e não se emocionou, você não está entendendo nada.