(Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Desde pequena escutava histórias das feiras livres. Minha avó Maria trabalhou anos como empregada doméstica, mas encontrou nas feiras livres não só o seu sustento, como o caminho para a casa própria. Um belo dia, perguntei ao meu pai: “Eu posso ver a vó trabalhar?”. Era um domingo ensolarado e lá fomos nós na aventura de observar a vó na feira, se não me engano, na Rua Vidal Sion, no Bairro Encruzilhada, em Santos. Chegando lá, me surpreendi com o que vi. Vó Maria não tinha uma barraca grande e farta, recheada de frutas coloridas e fresquinhas. Ela estava sentada em um caixote de madeira e, no outro, expunha os temperos que vendia. Equilibrava o alho, o louro, o orégano entre outros, no topo de um caixote disposto como uma mesa, na vertical. “Esse vermelho é o colorau, esse amarelo é a cúrcuma, o marronzinho é o cominho”, me explicou cheia de orgulho e alegria por receber nossa visita. Escutava os gritos dos feirantes e não entendia como a moça bonita não pagava, mas também não levava, porém a mulherada ria e eu gostava do clima alegre dos feirantes, sempre sorrindo e gritando para chamar a freguesia. “Leva a dúzia e paga só 10! Tá barato demais, freguesa!”. Analfabeta, vó Maria permaneceu vendendo temperos nas feiras livres até os 60 anos e foi assim que criou os dois filhos e comprou seu apartamentinho no Macuco, junto com as economias do vô Pedro, estivador no Porto de Santos. A rotina da vó era difícil, como a que a grande maioria dos feirantes encara até hoje. Acordar ainda à noite, com chuva ou sol, frio ou calor, de domingo a domingo. Descarregar o caminhão, montar a barraca com os itens a serem comercializados e, por volta das 14h, recolher tudinho, abastecer o caminhão e, aí sim, chegar em casa para descansar para o dia seguinte, tão duro quanto o anterior. No caso da minha vó, os temperos pesavam a sacola que levava no braço direito, enquanto carregava cada caixote em uma mão. Pegava o ônibus na Av. Conselheiro Nébias</CW><CW-19>. As feiras livres ocorrem desde o tempo da colonização, trazidas pelos portugueses, um hábito comum na Europa. Em Santos, foram liberadas oficialmente há 102 anos, depois de muita batalha em razão da pressão dos comerciantes. Décadas mais tarde, com o surgimento dos supermercados, acreditou-se que as feiras e também as quitandas seriam substituídas. Mas não, o colorido das frutas e verduras, as brincadeiras dos feirantes, o preço mais camarada, sempre com negociação, e até o encontro das pessoas do bairro só fortaleceu a tradição. Quem resiste ao pastel de feira com caldo de cana, me diz? A hora da xepa também sempre foi um atrativo. Os preços podem cair para mais da metade depois das 12h30; o feirante sabe que, pela deterioração dos alimentos, precisa voltar com o caminhão mais vazio possível. Fato é que, sem as feiras livres, a rede de distribuição de hortifrutigranjeiros seria seriamente abalada, além da economia e da cultura local. Prejudicaria de forma fatal o escoamento da agricultura familiar, assim como a redução do acesso dos consumidores a alimentos frescos e mais em conta. Outro dia, fui à feira do meu bairro, que fica a apenas uma quadra de casa. As feiras livres, aliás, sempre “perseguiram” minha família. Moramos por 20 anos na Rua Campos Mello, no Macuco, onde toda sexta-feira os feirantes montavam suas barracas na porta de casa. Acostumados com o barulho da montagem, depois de anos, já não nos incomodava mais. Cumprimentávamos os feirantes e quando meu pai ficou doente e meses internado, alguns tocaram a campainha para saber seu estado de saúde. Hoje moro a uma quadra da feira que frequento semanalmente. Nesta última, caminhei até a barraca da banana (estava, naquela hora, R\$ 6 a dúzia da prata). Depois passei pela barraca de frutas “Não vai levar o mamão, freguesa? “Tá doce como mel”, me disse o feirante. Segui procurando a uva sem semente (R\$ 10 a caixa). “Experimenta, freguesa!”, correu o feirante me fazendo provar não só a uva, como a pera e a mexerica. Mais adiante, lá estava ela, a senhorinha dos temperos. Negra, bem idosa, um lenço na cabeça para se proteger do sol. Assim como minha vó, também se equilibrava sentada no caixote de madeira. Nos tempos de hoje, duvido que tenha comprado um apartamento vendendo colorau, mas certamente garantiu sua dignidade até esta altura da vida. Levei tudo que ela ofereceu, como sempre, pensando na vó Maria.