Os microplásticos entram no corpo principalmente pela alimentação e ingestão de água contaminada (Adobe Stock) Os microplásticos já são considerados um dos grandes poluentes do século. Presentes em embalagens, garrafas, roupas sintéticas e até em cosméticos, essas partículas invisíveis a olho nu estão em praticamente todos os ambientes — inclusive dentro do corpo humano. Depois de terem sido detectadas no sangue, na placenta e até no cérebro, um novo trabalho científico indica que elas também podem afetar a integridade dos ossos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A análise, publicada na revista Osteoporosis International, foi conduzida pelo Laboratório para o Estudo Mineral e Ósseo em Nefrologia (Lemon), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os pesquisadores avaliaram 62 estudos internacionais e encontraram evidências preocupantes: além de se depositarem no tecido ósseo humano, os microplásticos podem prejudicar o funcionamento das células-tronco da medula óssea — fundamentais para a formação e regeneração óssea. De acordo com Luiz Felipe Carvalho, médico ortopedista e pesquisador em terapia celular, o impacto dos microplásticos vai muito além da poluição ambiental. “O que os estudos começam a mostrar é que o microplástico pode interferir diretamente nas células-tronco da medula óssea, prejudicando a formação e regeneração dos ossos. Isso pode acelerar processos degenerativos e comprometer a densidade óssea a longo prazo”, afirma. Segundo o especialista, a descoberta amplia o entendimento sobre fatores que influenciam a saúde do esqueleto. Dieta pobre em cálcio, sedentarismo e envelhecimento são conhecidos como vilões, mas não os únicos. “Além do estilo de vida, existem influências ambientais que estamos começando a compreender melhor. A exposição constante a microplásticos pode ser uma dessas variáveis silenciosas que enfraquecem nosso organismo sem que a gente perceba”. Os microplásticos entram no corpo principalmente pela alimentação e ingestão de água contaminada, mas também podem ser inalados. Uma vez absorvidos, circulam pela corrente sanguínea e podem se acumular em órgãos e tecidos. O estudo da Unicamp aponta que essas partículas são capazes de prejudicar a função das células-tronco da medula óssea, reduzir o crescimento do tecido ósseo, provocar inflamações e acelerar o envelhecimento celular. “Cuidar dos ossos não é apenas uma questão de envelhecimento, mas, sim, qualidade de vida. Quanto mais entendermos o que interfere na regeneração óssea — seja estilo de vida, hormônios ou fatores ambientais — melhor poderemos prevenir doenças e preservar nossa mobilidade ao longo dos anos”, conclui. O achado de microplásticos no tecido ósseo humano é recente. Mas, enquanto a ciência avança, o especialista reforça que medidas já conhecidas continuam sendo as melhores aliadas para manter a saúde dos ossos: Alimentação rica em cálcio e vitamina D; Prática de exercícios de impacto (como caminhada, corrida, musculação e dança); Evitar tabagismo e consumo excessivo de ultraprocessados; Acompanhamento médico regular e densitometria quando indicada. *Cláudia Duarte Cunha é jornalista especialista em saúde.