Jaafar Jackson interpreta o seu tio, Michael Jackson, com maestria (Lionsgate/Divulgação) Um dos filmes mais esperados do ano, Michael chega aos cinemas com uma proposta clara: mais espetáculo, menos drama. Em vez de seguir a cartilha tradicional das cinebiografias, o longa dirigido por Antoine Fuqua (O Protetor: Capítulo Final, 2023) aposta em transportar o espectador para dentro do palco, recriando a experiência de um show de Michael Jackson enquanto, em paralelo, apresenta fragmentos de sua vida fora dos holofotes. O foco é o astro, não o homem. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Dividido em duas partes, Michael tem, neste primeiro capítulo, um recorte que vai dos tempos dos Jackson Five até a turnê solo Bad, em 1988. O filme segue a linha de Bohemian Rhapsody (2018), do mesmo produtor, Graham King, ao privilegiar a catarse musical como eixo narrativo. É uma escolha honesta: o próprio trailer já indicava um filme voltado ao frisson, à celebração do suingue de um lendário Michael Jackson, deixando apenas uma fresta para o melodrama. As tragédias pessoais do artista são tratadas de forma superficial, como os traumas decorrentes dos abusos do pai e a obsessão com a própria aparência. O roteiro também sugere, de maneira sutil, uma possível assexualidade, ao mesmo tempo em que enfatiza o desejo de recuperar a infância interrompida, tendo como refúgio simbólico a obra Peter Pan, de J. M. Barrie. No filme, Michael expressa o sonho de construir a sua própria Terra do Nunca, como espaço de pertencimento e fuga, o que é um dos pontos interessantes na representação da personalidade dele. O artista realmente criaria a sua Terra do Nunca anos depois. O grande trunfo do filme é a construção do protagonista, interpretado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. Em sua estreia como ator, o jovem de 29 anos — filho de Jermaine Jackson — apresenta um desempenho impressionante. Mais do que a semelhança física, domina gestos, timbres e, sobretudo, a energia cênica que transformou Michael em um mito. Em cena, não imita: incorpora. Em alguns momentos, a fronteira entre ator e personagem praticamente desaparece. É hipnotizante. As recriações de shows e clipes, como Billie Jean e Thriller, em alta fidelidade e com ênfase no êxtase do público, reforçam a proposta de imersão. O resultado é uma experiência sensorial marcada pelo apelo à nostalgia. Ao mesmo tempo, o longa constrói a dualidade que marcou a figura do artista. Fora do palco, Michael surge como um homem doce, sensível e criativo; em cena, transforma-se em uma presença avassaladora, conduzindo coreografias com precisão, magnetismo e sensualidade. Essa tensão entre fragilidade e potência é um dos pontos fortes da produção. O principal antagonista é Joseph Jackson, pai do cantor, vivido pelo indicado ao Oscar Colman Domingo. Sem recorrer à violência explícita, o roteiro aposta na sugestão — e o ator entrega uma composição precisa, marcada por uma aura sombria e ambígua, equilibrando o pai abusivo e o empresário obstinado. Em resumo, Michael é um espetáculo visual envolvente que celebra o legado de um dos maiores artistas da cultura pop. Pode não ser um retrato definitivo, mas funciona como um tributo eficaz a uma lenda que redefiniu o conceito de astro. A continuação, que deve concluir a trajetória de Michael Jackson, já foi filmada, mas ainda não tem data de estreia. Assista a Michael no cinema, de preferência em versão legendada. Boa semana!