Transformar a própria dor em arte exige coragem. Foi justamente desse lugar que nasceu Quintal dos Sonhos, espetáculo protagonizado pelas santistas Carol Porto e Mariana Coggiola, com direção de Márcia Guedes (Diogo Peres/Divulgação) Transformar a própria dor em arte exige coragem. Foi justamente desse lugar que nasceu Quintal dos Sonhos, espetáculo protagonizado pelas santistas Mariana Coggiola e Carol Porto, com direção de Márcia Guedes. Na peça, Mariana não apenas assina o roteiro como também leva ao palco experiências profundamente pessoais ligadas à maternidade atípica, aos desafios do cuidado, à sobrecarga e à difícil retomada dos próprios sonhos diante das demandas do maternar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ao lado de Carol, ela dá vida a uma história que também aborda temas como infertilidade, esgotamento materno, falta de rede de apoio e acolhimento entre mulheres, criando um espaço de identificação para tantas histórias que costumam permanecer em silêncio. Nesta entrevista, as duas artistas falam sobre os bastidores da criação do espetáculo, as experiências que inspiraram a dramaturgia e a importância de colocar em cena dores, medos e recomeços compartilhados por tantas mulheres. A peça Quintal dos Sonhos será encenada nos dias 24 e 31 de julho, sempre às 20h30, no Teatro Multiplan MorumbiShopping, em São Paulo. Ingressos entre R\$ 60 e R\$ 120, no www.sympla.com.br. Você escreveu Quintal dos Sonhos a partir de experiências muito próximas da sua realidade. Em que momento percebeu que essas histórias precisavam sair da vida cotidiana e ganhar o palco? No momento que eu ganhei força para voltar aos palcos e para a minha profissão também. Foi após uma pneumonia da minha filha de uma sobrecarga de 30 dias em casa, entendi que eu teria que ter uma profissão além de maternar. Eu já tinha a profissão, só que tinha que voltar aos estudos, desenferrujar e seguir em frente. Me inscrevi em um curso de atuação duas vezes na semana e foi nesse processo de estudos que resolvi levar minhas dores para os palcos como força para tantas outras mulheres e mães que querem essa retomada, mas não conseguem dar o primeiro passo. Como foi transformar vivências tão íntimas, especialmente relacionadas à maternidade atípica e ao cuidado com uma criança autista, em dramaturgia? Quem não passa nunca vai sentir a dor do diagnóstico, as dificuldades e lutas diárias, e não é nem esse o intuito porque não tem como eles sentirem mesmo, mas tem como a gente cobrar respeito e empatia e é o outro ponto que discutimos em peça: a inclusão. Transformar a própria vivência é mais fácil na hora de escrever, a gente sabe o que está falando então diz com propriedade. A peça fala sobre temas ainda pouco discutidos publicamente, como infertilidade, esgotamento materno e falta de rede de apoio. O que você espera despertar no público ao trazer esses assuntos para a cena? Mulheres que sonham em embalar nos braços um bebê e não conseguem é um dos temas abordados na peça é que me toca profundamente também. Convivi com mulheres que fizeram inúmeras tentativas e que passaram anos com esse sonho, não é fácil. E estou encantada com a medicina reprodutiva. Sobre o esgotamento materno é falta de rede de apoio foi de um laboratório real de mulheres em centros de terapias que eu encontrava e conhecia cada história particular e difícil de cada. É para cada uma delas essa peça. Muitas mulheres sentem que precisam abrir mão dos próprios sonhos diante das demandas do maternar. O que Quintal dos Sonhos diz sobre a possibilidade de recomeçar e retomar projetos pessoais? Eu acho que essa pausa tem mas que diante de tantas demandas a força para retomar que pega. Laura, a minha personagem em Quintal dos Sonhos, é uma mãe solo, separada desde a gravidez, é uma mãe atípica e retoma a sua profissão, ela é o modelo de incentivo para elas. Você é atriz, roteirista e arte-educadora. Como concilia a carreira artística com a maternidade e quais foram os maiores desafios desse equilíbrio? Eu tenho rede de apoio então fica mais fácil. Tem sido leve e gradativo pois não estou em turnê com muitas datas e estão mais espaçadas. Mas sinto a minha pequena preparada, por isso eu voltei também. Eu materno todos os dias e faço arte todos os dias, seja escrevendo ou ensaiando. Sigo buscando esse equilíbrio dia a dia. O espetáculo tem como uma de suas mensagens centrais o acolhimento entre mulheres. Você acredita que ainda falta espaço para que mães compartilhem suas vulnerabilidades sem julgamento? Falta, total. As dores são silenciadas mesmo. A arte é um lugar para a gente mostrar a essas mulheres que elas não estão sozinhas e que sempre há tempo para recomeços. Você é santista . De que forma Santos e as experiências vividas aqui influenciaram sua formação artística e pessoal? Acredito que carregar minhas raízes santistas é também levar comigo valores como acolhimento, proximidade e autenticidade. Muito do que existe em Quintal dos Sonhos nasceu dessas vivências, desse olhar para as pessoas e para as histórias que encontrei ao longo da minha trajetória aqui. Santos não é apenas a cidade onde nasci ou vivi é o lugar que ajudou a construir a artista e a pessoa que sou. Depois de colocar no palco histórias tão potentes e necessárias, quais são os próximos sonhos que você ainda quer cultivar no seu próprio quintal? Transformar em livro e curta-metragem a obra Quintal dos Sonhos. Sonhando até mais alto, trasformá-lo em longa-metragem.